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                           DIVÓRCIO E ECOS FAMILIARES: AFETO, DINHEIRO E LUTOS

                                                                                                       
Ana Maria Fonseca Zampieri, Ph. D.
 

A família é um sistema aberto e tem vida própria: nasce, cresce, amadurece e morre. Seus subsistemas básicos são: o conjugal, com os papéis e funções de marido e esposa; o parental, com os de pais e filhos e o fraterno, com espaço para irmãos que aprendem a colaboração e a disputa.

Um dos maiores dilemas do ser humano é adequar as demandas existenciais de ter sua própria individualidade ao mesmo tempo em mantém o pertencimento familiar. Nem sempre é uma dinâmica simples e, dentre as crises de um casamento, o divórcio pode ser um resultado.

O casamento e a família inter-relacionados possuem crises previsíveis como: o nascimento dos filhos, sua adolescência, a fase do ninho vazio, a maturidade, a menopausa, a andropausa, frustrações emocionais e financeiras, entre outros. O divórcio ainda é vivido como uma crise imprevisível, como a morte, a falência, doenças e deficiências graves. Apesar de questionarmos o ritual do: “casados até que a morte os separe”, numa era em que a longevidade do ser humano pode ser muito “longa” para um único casamento; e já falarmos em: “até que a vida os separe”, o divórcio ainda constitui uma das maiores dores nas relações humanas nas famílias.

Os filhos são privilegiados quando os pais se respeitam e vivem em harmonia, independentemente se estão casados ou divorciados.

Sabemos que muitas vezes o divórcio pode ser a resposta de saúde para a esperança de renovações de vidas ruins. Todavia, neste artigo, falarei restritamente dos divórcios que têm complicações familiares.

Um dos maiores problemas desses divórcios é exatamente o emaranhamento que as pessoas vivem entre os subsistemas conjugal e parental; apresentando dificuldades em diferenciar os papéis de marido/pai e de esposa/mãe.

Dizem os poetas que o ódio é diretamente proporcional ao amor, no lado do avesso.Observo que a confiança pode ter mais diretamente essa relação. Em divórcios onde o amor não foi sustentado e sobrevivido, há mágoas e ressentimentos; mas, no divórcio onde as confianças foram traídas, o ódio tem um solo mais fértil para se instalar.

Há ecos e ressonâncias em vários âmbitos das relações familiares, em que o divórcio está associado à quebra da ética e da confiança. Como exemplo, ex-cônjuges podem se tornar pais agressivos e ameaçadores à saúde psíquica e emocional de seus filhos, especialmente se são crianças ou adolescentes.

Vejamos o depoimento de uma criança, com o nome fictício de Pedro, com 10 anos de idade, em família pós-divorciada:

“...eles se odeiam tanto que tenho medo...sabe, um dia eles falaram para mim que se adoravam...então agora eles quase se matam...daí...que um dia meus pais podem me odiar também desse jeito, né?...” (2006)

Ou este outro depoimento de uma adolescente de 16 anos, na mesma situação familiar:

“...meu pai disse que não admite que minha mãe tenha a mesma casa e conforto e que coma da mesma comida que nós, os filhos...então ele fará tudo que puder para destruir minha mãe...ficamos filhos de pai rico e de mãe pobre...e ele diz que quem quiser vida melhor que vá morar com ele...ele fala que minha mãe tem que se virar...mas ela ficou 20 anos sendo dona de casa...como ela vai se virar de repente na vida profissional?...ela não sabe nada da nossa empresa familiar...” (2007)

 

Sabemos que o casamento pode ser o palco onde os conflitos de nossas famílias de origem poderão ser re-encenados e resignificados.Quando isso não é possível, as raivas, vinganças e frustrações são maximizadas pelo sentimento de fracasso que o divórcio costuma promover, mesmo que temporariamente. Se isto não foi adequadamente entendido, poderemos ter um divórcio patológico, com ecos e ressonâncias nos afetos, nas finanças e nos espaços para as lutas das diversas perdas de seus membros.

Se isto coincidir, ainda, com relações empresariais, pode haver uma luta pelo poder que fere e magoa mais, fruto de feridas narcísicas dominadoras, onde fazer o outro sentir-se humilhado e fraco, pode provocar traumas severos nas psiques de seus membros envolvidos.

Procuro orientar que, nesses casos, as partes da luta busquem mediações profissionais, seja para evitar problemas financeiros, empresariais, emocionais, sociais e de ética humana; seja para prevenir somatizações, estresses pós-traumáticos, depressões e as chamadas “dores da alma”, que não têm hematomas nem indícios aparentes, mas que podem comprometer a confiança nas relações de amor e de dignidade humanos.

O sofrimento pode fazer sentido quando ele é resignificado e transmutado em alavanca para o crescimento. No entanto, o sofrimento que aduba o rancor e a raiva contra seus próprios familiares, como é o caso da difamação e destruição do pai ou da mãe de seus próprios filhos; provoca perda da capacidade inteligente do ser humano em ser resiliente, aquele que evolui com a dor sem perder sua dignidade, ética e responsabilidade pelo próximo, podendo apenas ser mais um sobrevivente.

Divórcios mal resolvidos têm ecos negativos na afetividade, nas finanças e na capacidade de cicatrização e elaboração de feridas e dores nas relações familiares.

O enfrentamento da realidade do divórcio emocional, com adequadas diferenciações dos subsistemas conjugal e parental, promove saúde e força emocional para o desenvolvimento de todos os seus membros no presente e no modelo que capacita futuras gerações, aos conflitos inerentes da vida.

 

        *Doutora e mestre em Psicologia Clínica.
        Pós graduada em terapia de casais e famílias.
        Terapeuta sexual.
        Terapeuta de EMDR.
        Psicóloga pela USP. 


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