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DIVÓRCIO E ECOS FAMILIARES: AFETO, DINHEIRO E LUTOS
A
família é um sistema aberto e tem vida própria: nasce, cresce,
amadurece e morre. Seus subsistemas básicos são: o conjugal, com
os papéis e funções de marido e esposa; o parental, com os de
pais e filhos e o fraterno, com espaço para irmãos que aprendem a
colaboração e a disputa. Um
dos maiores dilemas do ser humano é adequar as demandas
existenciais de ter sua própria individualidade ao mesmo tempo em
mantém o pertencimento familiar. Nem sempre é uma dinâmica
simples e, dentre as crises de um casamento, o divórcio pode ser um
resultado. O
casamento e a família inter-relacionados possuem crises previsíveis
como: o nascimento dos filhos, sua adolescência, a fase do ninho
vazio, a maturidade, a menopausa, a andropausa, frustrações
emocionais e financeiras, entre outros. O divórcio ainda é vivido
como uma crise imprevisível, como a morte, a falência, doenças e
deficiências graves. Apesar de questionarmos o ritual do:
“casados até que a morte os separe”, numa era em que a
longevidade do ser humano pode ser muito “longa” para um único
casamento; e já falarmos em: “até que a vida os separe”, o divórcio
ainda constitui uma das maiores dores nas relações humanas nas famílias. Os
filhos são privilegiados quando os pais se respeitam e vivem em
harmonia, independentemente se estão casados ou divorciados. Sabemos
que muitas vezes o divórcio pode ser a resposta de saúde para a
esperança de renovações de vidas ruins. Todavia, neste artigo,
falarei restritamente dos divórcios que têm complicações
familiares. Um
dos maiores problemas desses divórcios é exatamente o
emaranhamento que as pessoas vivem entre os subsistemas conjugal e
parental; apresentando dificuldades em diferenciar os papéis de
marido/pai e de esposa/mãe. Dizem
os poetas que o ódio é diretamente proporcional ao amor, no lado
do avesso.Observo que a confiança pode ter mais diretamente essa
relação. Em divórcios onde o amor não foi sustentado e
sobrevivido, há mágoas e ressentimentos; mas, no divórcio onde as
confianças foram traídas, o ódio tem um solo mais fértil para se
instalar. Há
ecos e ressonâncias em vários âmbitos das relações familiares,
em que o divórcio está associado à quebra da ética e da confiança.
Como exemplo, ex-cônjuges podem se tornar pais agressivos e ameaçadores
à saúde psíquica e emocional de seus filhos, especialmente se são
crianças ou adolescentes. Vejamos
o depoimento de uma criança, com o nome fictício de Pedro, com 10
anos de idade, em família pós-divorciada: “...eles
se odeiam tanto que tenho medo...sabe, um dia eles falaram para mim
que se adoravam...então agora eles quase se matam...daí...que um
dia meus pais podem me odiar também desse jeito, né?...” (2006) Ou
este outro depoimento de uma adolescente de 16 anos, na mesma situação
familiar: “...meu
pai disse que não admite que minha mãe tenha a mesma casa e
conforto e que coma da mesma comida que nós, os filhos...então ele
fará tudo que puder para destruir minha mãe...ficamos filhos de
pai rico e de mãe pobre...e ele diz que quem quiser vida melhor que
vá morar com ele...ele fala que minha mãe tem que se virar...mas
ela ficou 20 anos sendo dona de casa...como ela vai se virar de
repente na vida profissional?...ela não sabe nada da nossa empresa
familiar...” (2007) Sabemos
que o casamento pode ser o palco onde os conflitos de nossas famílias
de origem poderão ser re-encenados e resignificados.Quando isso não
é possível, as raivas, vinganças e frustrações são maximizadas
pelo sentimento de fracasso que o divórcio costuma promover, mesmo
que temporariamente. Se isto não foi adequadamente entendido,
poderemos ter um divórcio patológico, com ecos e ressonâncias nos
afetos, nas finanças e nos espaços para as lutas das diversas
perdas de seus membros. Se
isto coincidir, ainda, com relações empresariais, pode haver uma
luta pelo poder que fere e magoa mais, fruto de feridas narcísicas
dominadoras, onde fazer o outro sentir-se humilhado e fraco, pode
provocar traumas severos nas psiques de seus membros envolvidos. Procuro
orientar que, nesses casos, as partes da luta busquem mediações
profissionais, seja para evitar problemas financeiros, empresariais,
emocionais, sociais e de ética humana; seja para prevenir somatizações,
estresses pós-traumáticos, depressões e as chamadas “dores da
alma”, que não têm hematomas nem indícios aparentes, mas que
podem comprometer a confiança nas relações de amor e de dignidade
humanos. O
sofrimento pode fazer sentido quando ele é resignificado e
transmutado em alavanca para o crescimento. No entanto, o sofrimento
que aduba o rancor e a raiva contra seus próprios familiares, como
é o caso da difamação e destruição do pai ou da mãe de seus próprios
filhos; provoca perda da capacidade inteligente do ser humano em ser
resiliente, aquele que evolui com a dor sem perder sua dignidade, ética
e responsabilidade pelo próximo, podendo apenas ser mais um
sobrevivente. Divórcios
mal resolvidos têm ecos negativos na afetividade, nas finanças e
na capacidade de cicatrização e elaboração de feridas e dores
nas relações familiares. O
enfrentamento da realidade do divórcio emocional, com adequadas
diferenciações dos subsistemas conjugal e parental, promove saúde
e força emocional para o desenvolvimento de todos os seus membros
no presente e no modelo que capacita futuras gerações, aos
conflitos inerentes da vida.
*Doutora
e mestre |
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