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Quais de nós teve educação sexual nas famílias
de origem? A educação é um processo contínuo e eterno, que tem bases de solidez, confiabilidade e “empoderamento” para as questões da vida, dentro do sistema familiar, especialmente na infância e na adolescência. Como estão preparadas as famílias atuais, com filhos adolescentes, para lidar com a pandemia da Aids, os perigos do HPV e o problema da gravidez precoce? Tudo isto inserido num contexto social permeado de violências afetivas, sexuais, psicológicas e sociais; a destruição que as drogas podem provocar e tantas novas possibilidades e modalidades de formação de famílias? Hoje temos famílias de pais homossexuais, famílias recasadas, famílias adotivas e monoparentais, entre outras. Tantos são os desafios e tantas as oportunidades de crescermos como educadores, pais e filhos. Quanto mais nos unirmos, lutando contra a tentação de certezas, para buscar o compartilhar dos conhecimentos que respeitem as diferenças, tanto menos problemas teremos, tanto menos impotentes nos sentiremos frente a estas questões: gravidez precoce e Aids. Os índices de gravidez, natalidade e aborto entre adolescentes no Brasil, preocupam profissionais das áreas de saúde e ciências sociais e são vistos como expressão de várias transformações sociais, como a liberalização dos costumes sexuais e o baixo uso de contracepção por adolescentes. Além de ser uma forma de expressar amor, sexo é uma fonte de prazer e saúde, e pode ter como finalidade a reprodução humana. De uma relação sexual pode sugerir uma gravidez que normalmente acontece se, durante o coito, o homem ejacular na vagina da mulher e se ela estiver no período fértil. É comum alguns homens pensarem que a prevenção e a própria gravidez são um problema apenas da mulher. Afinal, é ela quem carrega o filho na barriga, que o pare e o amamenta. Eles querem sexo, mas não se comprometem com essas questões. Essa é a queixa de muitas jovens. Ter compromisso é uma questão de conscientização e do próprio desejo do jovem de assumir, com responsabilidade, a relação a dois. Os pais que acolhem seus filhos, que os informam e lhes permitem um espaço para diálogos contam mais facilmente com a aproximação e abertura deles para falarem de qualquer problema. Uma gravidez indesejada é um transtorno na vida do adolescente. Com quem ele pode contar? Agora não adianta mais só prevenir, pois o fato está consumado. O ideal seria que a adolescente procurasse adultos de sua confiança, principalmente o médico, para orientá-la. A jovem que não pode contar com o apoio dos pais toma outras medidas, às vezes desastrosas, como deixar de se alimentar para esconder a barriga justamente na fase da gravidez, quando precisa de uma dose boa de nutrientes. Em desespero, recorre a conselho de amigos ou pessoas que não têm conhecimentos corretos para orientá-la e a adolescente pode decidir por providenciar um aborto utilizando-se de métodos perigosos, ou mesmo fazê-lo contra sua vontade. Fatos como este afetam a saúde, a auto-estima e causam conflitos que poderão fragilizá-la mais ainda. Há situações que favorecem a gravidez não
planejada na adolescência, como: O aborto é uma questão polêmica. Algumas pessoas são a favor, outras, contra. A legalidade do aborto varia conforme as leis de cada país. No Brasil, o aborto é considerado um crime, salvo quando é feito para salvar a vida da gestante ou quando a gravidez se deu pelo estupro. As pessoas favoráveis ao aborto defendem, entre outras coisas, a liberdade e o direito da mulher de decidir sobre a interrupção da gravidez indesejada. As pessoas que são contra o aborto afirmam que a vida tem início no momento da concepção. Em alguns casos de gravidez não planejada, é comum os adolescentes acreditarem, de forma simplista, que o aborto é uma solução. Pelos depoimentos, podemos observar que há estresse e culpa na grande maioria das jovens que abortaram. Calcula-se que, no Brasil, sejam realizados em torno de 1,5 milhão de abortos por ano, sendo grande parte de adolescentes. Algumas das causas que justificam esse ato índice é a falta de uma política governamental de planejamento familiar, de educação sexual nas escolas e na família. A falta de informação ou de dinheiro contribui para que a maioria da população não tenha acesso aos métodos anticoncepcionais, como DIU, pílulas, camisinha e outros recursos. Quando as adolescentes tentam fazer um aborto sem acompanhamento médico, colocam em risco a saúde e suas próprias vidas. Portanto, por esta e outras razões, é importante que saibam o que estão querendo com a relação sexual. Ter filhos? Busca apenas do prazer? Sendo assim, ambos devem estar de acordo e a par dos cuidados necessários. Por uma questão de respeito a si próprio, à outra pessoa e a um terceiro, possivelmente um bebê, é preciso que cada um tenha consciência do que está querendo. A partir daí, é conveniente que dialoguem e cheguem a uma conclusão mútua. Se querem ter relações sexuais e não querem ter filhos, que pensem em métodos anticoncepcionais. Esta é uma forma de prevenir. É certo que a exigência tradicional de virgindade feminina até o casamento, a desmoralização e estigmatização das não-virgens têm se alterado significativamente. A concepção moderna de amor e de eleição pessoal e subjetiva do amado, associada à difusão televisiva de uma imagem extremamente sexualizada da mulher moderna, passou a comportar a legitimação social e familiar de certos contatos corporais entre os casais de namorados como abraços, beijos e carícias arrojadas que podem ser trocados publicamente. Ser atraente e sensual, capaz de despertar o interesse do outro sexo, tornou-se um importante valor para a identidade feminina, tal como a sexualidade difundida pelos meios de comunicação de massa. A exibição de erotismo e sensualidade associa-se à interdição do exercício pleno da sexualidade por mulheres solteiras. Como se formula a identidade feminina adolescente dentro desse quadro de ambigüidades? De que forma mulheres adolescentes estruturam sua subjetividade com relação a normas e valores contraditórios? Um número cada vez maior de mulheres adolescentes
urbanas tornam-se grávidas sem o desejarem. Vejamos um depoimento de uma adolescente, que aqui
chamaremos de Maria. Ela tem 15 anos e define adolescência assim: A gravidez é o ponto final da adolescência, enquanto aspiração de participar e de construir uma identidade base para a identidade adulta de mulher relativamente emancipada. A importância da televisão e da mídia em geral na difusão e na produção de sexualidades e identidades é percebida de forma perspicaz. Todavia, muitas jovens não têm análise crítica suficiente para diferenciar as fantasias do amor e da sexualidade, da realidade de seus contextos de vida. Confusas, muitas vezes idealizam no amor sexual a resposta para seus problemas e frustrações da vida. Alguns adolescentes dizem que em casa o pessoal é meio antiquado, que os pais são tradicionais, outras afirmam que se uma menina transar com o namorado é normal, e se uma menina engravidar antes de casar também não é nenhum fim do mundo! Que é melhor que outras coisas, como por exemplo, se drogar. Há outros depoimentos, como o de Cecília, de 16
anos que liga o sexo ao amor, justificando a falta de cuidados com doenças
sexualmente transmissíveis e/ou gravidez. A não premeditação do sexo é entendida pelas jovens como evitação de desmoralização sexual.
Vários são os elementos de normalização a serem examinados. Como o amor, que é visto como fator de perda da razão, de ilusão, de ingenuidade ou perda de controle, não premeditação da atividade sexual, cessão antes que paixão, paixão como sinônimo de descontrole, exigüidade de número de parceiro e fortuidade das circunstâncias em que se deram os intercursos sexuais. Já Michael Foucault (1982) observava que o discurso que o indivíduo é capaz de ter sobre si mesmo, adquire efeito, não em quem o recebe, mas naquele que é extorquido. O amor pode reduzir-se a amor-concessão, o que permite uma demissão da própria sexualidade, reduzindo-a à sexualidade do parceiro. A gravidez e a maternidade tendem a assumir um caráter quase na ordem natural das coisas, para a subjetividade dessas adolescentes. O uso de contracepção desmoralizaria sua vida sexual, mesmo depois do desvirginamento, uma vez que implicaria consciência e premeditação, antes que cessão e sedução. Vejamos este depoimento: “-... No fundo, no fundo... eu tinha muita curiosidade... Ia doer? Ia sangrar? Todo mundo fala tanto que é bom...” Carla, 14 anos. O principal sentimento referido com a menarca é de dubiedade: por um lado, incômodo, estorvo, nostalgia da infância; por outro, orgulho e descoberta, sensualização. Adolescentes, que vivem em famílias e meios onde gravidez precoce é freqüente, manifestam maior interesse pela maternidade e menor desejo de abortar. A reação positiva do namorado é fundamental na opção pela maternidade. É a coabitação conjugal que irá moralizar sua gravidez solteira e não a maternidade. A gravidez, uma vez tornada pública, isto é, uma vez conhecida pela família e pela vizinhança, altera irremediavelmente sua identidade e posição sócio-familiar, ainda que ela houvesse se submetido ao aborto. Assim, o aborto só é considerado útil na medida em que a gravidez não se tornou pública e ele pode adiar a mudança de identidade de menina a mulher. Mas relação com o parceiro é fundamental na opção pela maternidade ou desejo de abortar para a grande maioria das informantes. A difusão de valores modernos, como maternidade retardada, trabalho extralar, estudo e melhor qualificação profissional para mulheres, percepção do amor em lugar de maternidade como base de casamento, escolha individual e subjetiva do parceiro, deve, em maior ou menor grau, entrar em conflito com a normalização fornecida pelos modelos mais tradicionais. É preciso que as famílias possam estar em constante discussão sobre essa dinâmica toda, para melhor educar-se e a seus filhos, especialmente no que se refere à sexualidade. Outra grande questão de saúde pública em relação aos nossos adolescentes, é a Aids. Na conferência sobre a Aids realizada em março deste ano no norte da Alemanha. em Bremen, relatou-se um número aproximado de 40,3 milhões de pessoas infectadas no mundo, mais da metade na África. Isto considerando-se apenas os casos registrados. Esta Conferência estabeleceu prioridades, junto ao presidente do Programa das Nações Unidas contra a Aids (UNAIDS) Peter Piot. Entre elas garantir que esses 40,3 milhões de pessoas com Aids tenham acesso a tratamentos adequados, vidas sem discriminação e a luta para retirar, da epidemia, todos os tabus que a caracterizam. Dessas 17,5 milhões são mulheres e 2,3 milhões em crianças abaixo de 15 anos. Quase metade dos novos casos de Aids no mundo ocorre entre jovens com idade entre 15 e 24 anos. Desses jovens, metade são do sexo feminino. Sabemos que a transmissão sexual é responsável por 85 por cento dos casos de Aids e que usar o preservativo é 10000 vezes mais seguro que não usar. Muitas vezes o não uso de preservativos está ligado ao uso abusivo de álcool e outras drogas, ou aos chamados namoros firmes, onde os jovens justificam que seu uso pode gerar desconfiança quanto à fidelidade do casal. Outras jovens, seguindo padrões de conjugalidade aprendidos com suas mães e avós, abrem mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou maltratadas física, moral e psicologicamente por seus parceiros. Também o fato de estarem apaixonadas, faz com que essas jovens criem falsas imagens de segurança. Aliás, como suas mães o fazem em relação à fidelidade no casamento. Outro fator de vulnerabilidade dos jovens ao HIV, é a mídia que faz grande apelo erótico ao adolescente, unificando padrões de comportamentos sexuais como algo não planejado, carregado de mitos e preconceitos, como por exemplo, de que o uso do preservativo pode dificultar a ereção e o desempenho sexual. No Brasil estima-se que 600 mil pessoas sejam portadoras do HIV e que 30 milhões estejam infectadas por alguma doença sexualmente transmissível. Este quadro é visto em pessoas a partir de 14 anos de idade, especialmente em pessoas suscetíveis à infecção, adoecimento e morte pelo HIV, por vulnerabilidades que envolvem: baixa auto-estima, falta de informação sobre riscos à saúde, sentimentos de exclusão, baixa escolaridade, dificuldades em acesso rápido a serviços de saúde, intolerância à diversidade sexual, especialmente relacionadas à orientação sexual, questões de gênero, mitos e tabus sobre a sexualidade: direitos reprodutivos e violência sexual doméstica, entre outros. A representação do brasileiro como povo altamente sensual e sexualizado, remonta às primeiras representações dos exploradores e descobridores do país, onde se geraram, por descontextualizações culturais, racismo e ordem moral judaica cristã, os primeiros mitos do brasileiro como libidinoso .e desinibido. A interação sexual com mistura das três raças: o índio, o negro e o europeu, facilitou a crença de que o ambiente em que começou a vida brasileira, foi de intoxicação sexual. Herdamos distinções entre formas de expressão sexual legítimas e ilegítimas, organizadas em torno da monogamia e da procriação, onde sexo fora do casamento heterossexual é pecado, que mantém no silêncio as práticas sexuais de cada um, revelado pela expressão popular de que “entre quatro paredes tudo pode acontecer” E, ainda a manutenção de conceitos de excitação sexual, prática erótica, diversão e agressão, conceitos estes, ligados num único complexo simbólico em que há um sistema de referência erótica no qual as transgressões sexuais masculinas, ainda são implícita e explicitamente contextualizadas como positivas e esperadas, na manutenção de uma virilidade masculina “naturalizada”. Com o advento dos anos sessenta e da pílula anticoncepcional, época de possibilidade de disjunção entre o sexo erótico e reprodutivo no Brasil e no mundo, a possibilidade da atividade sexual irrestrita significava a promessa da democracia, a quebra da hierarquia e da dominação do modelo patriarcal herdado. Nesse cenário surge a Aids na década de oitenta, enfatizando a homofobia enquanto definida como peste gay, sendo a doença da moral quando sugeria os grupos de risco entre gays, prostituas e promíscuos e deixando abertas as entradas para a chamada sagrada família, contaminada por atitudes de vulnerabilidades em mães, santificadas personagens da nossa sociedade, que se calaram das DSTs mesmo após o surgimento da penicilina. Temos então, nas questões de gênero, de relação homem-mulher, de duplo padrão de moralidade, de religiosidades dissociadas das realidades das vidas de seus fiéis, dos mitos e tabus da sexualidade ainda invisível para se esconder dos pecados e acusações de anormalidades; das fugas da morte como realidade controlável pela medicina moderna; de longevidade e promessas de eterna juventude da indústria capitalista, da crença de que a chamada terceira idade traz imunidade da santificação do amor romântico que inibe a objetividade, da ilusão de que somos livres sem responsabilidades e auto-estima; os elementos co-fundantes da Aids Imaginária, que nos coloca, brasileiros e cidadãos do mundo, de crianças a idosos, como “soro interrogantes” (sem saber se somos HIV positivo ou negativo, porque raramente fazemos os testes), vulneráveis à infecção do HIV em moldes similares aqueles que testemunham a dizimação de várias populações africanas. Tenho desenvolvido dissertações e teses de mestrado, doutorado e pós doutorado com as denominadas pesquisas-ação, onde a pesquisa se dá concomitante a intervenções nos grupos pesquisados, onde a observação participante da pesquisadora é considerada, na luta contra a chamada “africanização” da Aids no Brasil. Estes trabalhos têm sido realizados no Núcleo de Família e Comunidade do Programa de Pós Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em parcerias com diversas instituições e ONGs como a F&z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde de São Paulo, A Associação Saúde da Família de São Paulo, a AIDSCAP Rapid Response Fund, a Elton John Aids Foundation, o Rotary Club do Brasil, especialmente o do Butantã, entre várias outras do setor público e privado do Brasil. O Sociodrama Construtivista da Aids é um método de psicoterapia e educação psicosocial grupal que propõe a co-construção de novas verdades, legitimadas e desconstruídas pelo grupo em ação, na busca de saídas factíveis para as realidades psico-sócio-culturais do mesmo, embasadas no sistema de crenças e valores aprovados pelos mesmos. O terapeuta e/ou o educador sociodramatista construtivista participa do grupo como um elemento a mais, na busca dessas saídas e resoluções, enquanto facilitador dessa desconstrução de mitos, tabus e crenças, pela proposta da dramatização de personagens sociais, representativos no micro, no macro grupo social, em seus aspectos co-conscientes e co-inconscientes sobre os temas trabalhados em conjunto. Atualmente esta luta consiste num novo Projeto que
pretende alcançar cerca de 15 mil adolescentes
carentes de A nossa hipótese é de que criados e oferecidos estes espaços de legitimação das subjetividades destes adolescentes e da intersubjetividade pela vivência grupal, os mitos, valores e crenças que dificultam e/ou impedem atitudes sexuais de menores riscos e vulnerabilidades ao HIV/Aids e à gravidez precoce, sejam modificados através de maiores sensibilização e conscientização de recursos pessoais, que os ajudem a resignificar comportamentos preventivos como força pessoal, de auto estima e de “empoderamento” contra esta enfermidade. Famílias, escolas e adolescentes: são o tripé para a saúde sexual. Referências Bibliográficas BARBERÁ, E. (1998). Psicologia del Género. Ariel
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