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Educação Familiar na luta contra Gravidez Precoce e HIV/Aids nos jovens adolescentes
Profª Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri*

Quais de nós teve educação sexual nas famílias de origem?
O que aprendemos sobre virgindade, erotismo, sexualidade, prazer, orgasmos, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e Aids? Onde aprendemos? Como aprendemos?

A educação é um processo contínuo e eterno, que tem bases de solidez, confiabilidade e “empoderamento” para as questões da vida, dentro do sistema familiar, especialmente na infância e na adolescência.

Como estão preparadas as famílias atuais, com filhos adolescentes, para lidar com a pandemia da Aids, os perigos do HPV e o problema da gravidez precoce? Tudo isto inserido num contexto social permeado de violências afetivas, sexuais, psicológicas e sociais; a destruição que as drogas podem provocar e tantas novas possibilidades e modalidades de formação de famílias? Hoje temos famílias de pais homossexuais, famílias recasadas, famílias adotivas e monoparentais, entre outras.

Tantos são os desafios e tantas as oportunidades de crescermos como educadores, pais e filhos. Quanto mais nos unirmos, lutando contra a tentação de certezas, para buscar o compartilhar dos conhecimentos que respeitem as diferenças, tanto menos problemas teremos, tanto menos impotentes nos sentiremos frente a estas questões: gravidez precoce e Aids.

Os índices de gravidez, natalidade e aborto entre adolescentes no Brasil, preocupam profissionais das áreas de saúde e ciências sociais e são vistos como expressão de várias transformações sociais, como a liberalização dos costumes sexuais e o baixo uso de contracepção por adolescentes.

Além de ser uma forma de expressar amor, sexo é uma fonte de prazer e saúde, e pode ter como finalidade a reprodução humana. De uma relação sexual pode sugerir uma gravidez que normalmente acontece se, durante o coito, o homem ejacular na vagina da mulher e se ela estiver no período fértil.

É comum alguns homens pensarem que a prevenção e a própria gravidez são um problema apenas da mulher. Afinal, é ela quem carrega o filho na barriga, que o pare e o amamenta. Eles querem sexo, mas não se comprometem com essas questões. Essa é a queixa de muitas jovens. Ter compromisso é uma questão de conscientização e do próprio desejo do jovem de assumir, com responsabilidade, a relação a dois.

Os pais que acolhem seus filhos, que os informam e lhes permitem um espaço para diálogos contam mais facilmente com a aproximação e abertura deles para falarem de qualquer problema. Uma gravidez indesejada é um transtorno na vida do adolescente. Com quem ele pode contar? Agora não adianta mais só prevenir, pois o fato está consumado.

O ideal seria que a adolescente procurasse adultos de sua confiança, principalmente o médico, para orientá-la. A jovem que não pode contar com o apoio dos pais toma outras medidas, às vezes desastrosas, como deixar de se alimentar para esconder a barriga justamente na fase da gravidez, quando precisa de uma dose boa de nutrientes. Em desespero, recorre a conselho de amigos ou pessoas que não têm conhecimentos corretos para orientá-la e a adolescente pode decidir por providenciar um aborto utilizando-se de métodos perigosos, ou mesmo fazê-lo contra sua vontade. Fatos como este afetam a saúde, a auto-estima e causam conflitos que poderão fragilizá-la mais ainda.

Há situações que favorecem a gravidez não planejada na adolescência, como:
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        Falta de informações e orientação sexual.
*        Abandono ou rejeição dos pais.
*        Abuso sexual ou estupro.
*        Influência de modelos exibidos pela mídia.
*        Falta de conhecimentos dos métodos anticoncepcionais e condições para adquiri-los.
*        Ficar livre da pressão dos pais através do casamento.
*       Tentativa de prender o namorado por causa do filho que espera.
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        Chamar atenção sobre si mesma.
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        Curiosidade.
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        Contrariar ordens familiares.
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        Carência afetiva. Desejo de que o bebê seja a fonte de carinho.
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        Desejo de buscar poder.

O aborto é uma questão polêmica. Algumas pessoas são a favor, outras, contra. A legalidade do aborto varia conforme as leis de cada país. No Brasil, o aborto é considerado um crime, salvo quando é feito para salvar a vida da gestante ou quando a gravidez se deu pelo estupro.

As pessoas favoráveis ao aborto defendem, entre outras coisas, a liberdade e o direito da mulher de decidir sobre a interrupção da gravidez indesejada. As pessoas que são contra o aborto afirmam que a vida tem início no momento da concepção.

Em alguns casos de gravidez não planejada, é comum os adolescentes acreditarem, de forma simplista, que o aborto é uma solução. Pelos depoimentos, podemos observar que há estresse e culpa na grande maioria das jovens que abortaram.

Calcula-se que, no Brasil, sejam realizados em torno de 1,5 milhão de abortos por ano, sendo grande parte de adolescentes. Algumas das causas que justificam esse ato índice é a falta de uma política governamental de planejamento familiar, de educação sexual nas escolas e na família. A falta de informação ou de dinheiro contribui para que a maioria da população não tenha acesso aos métodos anticoncepcionais, como DIU, pílulas, camisinha e outros recursos.

Quando as adolescentes tentam fazer um aborto sem acompanhamento médico, colocam em risco a saúde e suas próprias vidas. Portanto, por esta e outras razões, é importante que saibam o que estão querendo com a relação sexual. Ter filhos? Busca apenas do prazer? Sendo assim, ambos devem estar de acordo e a par dos cuidados necessários. Por uma questão de respeito a si próprio, à outra pessoa e a um terceiro, possivelmente um bebê, é preciso que cada um tenha consciência do que está querendo. A partir daí, é conveniente que dialoguem e cheguem a uma conclusão mútua. Se querem ter relações sexuais e não querem ter filhos, que pensem em métodos anticoncepcionais. Esta é uma forma de prevenir.

É certo que a exigência tradicional de virgindade feminina até o casamento, a desmoralização e estigmatização das não-virgens têm se alterado significativamente.

A concepção moderna de amor e de eleição pessoal e subjetiva do amado, associada à difusão televisiva de uma imagem extremamente sexualizada da mulher moderna, passou a comportar a legitimação social e familiar de certos contatos corporais entre os casais de namorados como abraços, beijos e carícias arrojadas que podem ser trocados publicamente. Ser atraente e sensual, capaz de despertar o interesse do outro sexo, tornou-se um importante valor para a identidade feminina, tal como a sexualidade difundida pelos meios de comunicação de massa. A exibição de erotismo e sensualidade associa-se à interdição do exercício pleno da sexualidade por mulheres solteiras.

Como se formula a identidade feminina adolescente dentro desse quadro de ambigüidades? De que forma mulheres adolescentes estruturam sua subjetividade com relação a normas e valores contraditórios?

Um número cada vez maior de mulheres adolescentes urbanas tornam-se grávidas sem o desejarem.

     “- Se a garota carregar o preservativo na bolsa, tira a idéia de que ela transou por não resistir ao calor da paixão, de que foi sem querer...” Selma, 15 anos

Enquanto que para o homem adolescente a exploração do interesse heterossexual é considerada normal e desejável, para a mulher adolescente há uma associação entre erotização que estimula a jovem a ser sedutora, feminina e simultaneamente ao platonismo, procrastinando-se o exercício da sexualidade para o momento da descoberta do grande amor ou do homem com o qual ela queira casar. Desta forma, enquanto é socialmente admitido ao homem adolescente experimentação e erro de atitudes sexuais, vistas como coisas da idade, nos quais ele pode treinar e experimentar sua criatividade, à mulher adolescente multiplicam-se os discursos e práticas que condicionam e treinam sua aptidão ao papel que deve, assumir na sociedade: mãe e esposa, isto é, reprodutora e não produtora da vida e do social.

Vejamos um depoimento de uma adolescente, que aqui chamaremos de Maria. Ela tem 15 anos e define adolescência assim:

     “-...Adolescência... Deixa eu ver... Pra mim é um momento na minha vida, um momento que você começa a se descobrir... Começa a querer pensar com a sua cabeça, viver suas experiências, seja certo, seja errado, quebrando a cara... Um tempo que você pode aproveitar mais a vida, se divertir, estudar...”

A identificação com a mulher independente e profissionalizada, fornece o principal modelo de identidade adulta, cuja base a adolescente se vê nessa fase da vida e na qual anseia manter ou ampliar a relativa liberdade alcançada com relação à família, sem abrir mão da proteção e sustentação que ela proporciona.

Dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde Materno-Infantil e Planejamento Familiar, no Brasil (2005), apontam a idade de 14 anos como aquela em que a ocorrência do primeiro intercurso torna-se significativamente alta entre as mulheres.

A passagem da infância à adolescência dá-se através de um processo descontínuo e a ocorrência de gravidez não programada, especialmente quando seguida de maternidade, pode ter ação disruptora. Isto é tanto mais provável quanto mais jovem for a adolescente e quanto menos o seu meio sociocultural e a sociedade em geral, lhe forneçam modelos passíveis de permitir identificação.

Muitas adolescentes negam a gravidez, até praticamente o momento do parto, e especialmente na primeira gravidez.

A gravidez é o ponto final da adolescência, enquanto aspiração de participar e de construir uma identidade base para a identidade adulta de mulher relativamente emancipada.

A importância da televisão e da mídia em geral na difusão e na produção de sexualidades e identidades é percebida de forma perspicaz. Todavia, muitas jovens não têm análise crítica suficiente para diferenciar as fantasias do amor e da sexualidade, da realidade de seus contextos de vida. Confusas, muitas vezes idealizam no amor sexual a resposta para seus problemas e frustrações da vida.

Alguns adolescentes dizem que em casa o pessoal é meio antiquado, que os pais são tradicionais, outras afirmam que se uma menina transar com o namorado é normal, e se uma menina engravidar antes de casar também não é nenhum fim do mundo! Que é melhor que outras coisas, como por exemplo, se drogar.

Há outros depoimentos, como o de Cecília, de 16 anos que liga o sexo ao amor, justificando a falta de cuidados com doenças sexualmente transmissíveis e/ou gravidez.

     “-...Quando você dá por amor... tá consciente, não vai se arrepender depois... Então, o fundamental é o amor? Só por desejo você não... O troço também é bom pro corpo, bom pra mente. Mas... Assim, eu estava falando no caso de... Num outro caso... No caso de... De viver a dois, entende? Pra se completarem como casal, entende? O homem quanto mais transa, mais ama e a mulher, quanto mais ama mais transa”.Cecília, 16 anos.

Outra adolescente fala da não premeditação do sexo:

     “-...Eu sempre tentava evitar, não deixar as coisas chegarem lá... Mas eu gostava dele, né? As coisas foram indo, foram indo, até que aconteceu: Enquanto você tá moça, você tenta evitar um pouco... Mas sabe como é homem: sempre insiste mais um pouco... Até que consegue o que quer...” Carla, 15 anos.

A inocência tem sido por vezes denominada de ingenuidade biológica, na medida em que a adolescente alega desconhecer ou não toma em consideração seus conhecimentos da sexualidade e da reprodução ao iniciar vida sexual ativa. Essa ingenuidade apesar da presença de grande e real desconhecimento de fatos elementares do ciclo reprodutivo feminino, especialmente entre as adolescentes dos estratos pobres, aponta para o não-sancionamento do intercurso sexual.

A não premeditação do sexo é entendida pelas jovens como evitação de desmoralização sexual.

      “-...Se uma menina é pega pra cristo, ih! ... Aí é fogo. Porque os próprios caras só ficam a fim dela pra poder falar; não tão a fim de um relacionamento, entende? São os rapazes que “queimam” as meninas com quem eles saem?. As mulheres são ainda piores. Começam com a fofoca...” Marilda, 15 anos.

Uma vez que a necessidade de não premeditação se mantém, a perda da virgindade não sanciona o exercício da sexualidade exceto, quando se dá dentro do casamento.

Há, ainda, a necessidade de inscrever a vida sexual ativa num dispositivo de moralização, evitando a adolescente, de ser culpabilizada ainda inseguras, após perderem a virgindade e ao iniciar uma nova relação, recusam-se, a manter encontros em motel ou a ter relações sexuais na casa de seu namorado ou de seus pais. Os intercursos sexuais entre os dois ocorrem, durante um certo tempo, em locais e circunstâncias fortuitas, o que permite a ela e ao namorado, percebê-los como não premeditados. Isto pode durar algum tempo até que o amor dos dois legitime o início da vida sexual mais livre e talvez com fantasias de que com eles não vai acontecer nada de DSTs ou gravidez..

Vários são os elementos de normalização a serem examinados. Como o amor, que é visto como fator de perda da razão, de ilusão, de ingenuidade ou perda de controle, não premeditação da atividade sexual, cessão antes que paixão, paixão como sinônimo de descontrole, exigüidade de número de parceiro e fortuidade das circunstâncias em que se deram os intercursos sexuais. Já Michael Foucault (1982) observava que o discurso que o indivíduo é capaz de ter sobre si mesmo, adquire efeito, não em quem o recebe, mas naquele que é extorquido.

O amor pode reduzir-se a amor-concessão, o que permite uma demissão da própria sexualidade, reduzindo-a à sexualidade do parceiro. A gravidez e a maternidade tendem a assumir um caráter quase na ordem natural das coisas, para a subjetividade dessas adolescentes. O uso de contracepção desmoralizaria sua vida sexual, mesmo depois do desvirginamento, uma vez que implicaria consciência e premeditação, antes que cessão e sedução. Vejamos este depoimento:

     “-...Eu nem queria, ele é que procurava sexo comigo. Eu não queria perder minha virgindade, mas ele foi me levando no bico. Daí eu nem pensei em pílula... que nada! Eu sempre dizia não, mas ele prometeu que a gente ia casar. Eu gostava dele, tinha amor por ele, né? Tanto é que depois eu chorei, mas não adianta chorar o leite derramado, né? Quando a gente gosta acaba se iludindo com aquilo, acredita no amor do homem, aí, já viu! Que casar que nada!”. Célia, 14 anos.

Algumas jovens admitem, cautelosamente, a curiosidade sexual, mas que cedem ao intercurso sexual por amor:  

     “-... No fundo, no fundo... eu tinha muita curiosidade... Ia doer? Ia sangrar? Todo mundo fala tanto que é bom...” Carla, 14 anos.

Existe uma relação entre menarca, primeiro intercurso e primeira gravidez entre adolescentes de baixa renda. A média de idade na menarca encontrada é de 13 anos, e a idade média do primeiro intercurso sexual, 15 anos.

O principal sentimento referido com a menarca é de dubiedade: por um lado, incômodo, estorvo, nostalgia da infância; por outro, orgulho e descoberta, sensualização.

Adolescentes, que vivem em famílias e meios onde gravidez precoce é freqüente, manifestam maior interesse pela maternidade e menor desejo de abortar.

A reação positiva do namorado é fundamental na opção pela maternidade. É a coabitação conjugal que irá moralizar sua gravidez solteira e não a maternidade. A gravidez, uma vez tornada pública, isto é, uma vez conhecida pela família e pela vizinhança, altera irremediavelmente sua identidade e posição sócio-familiar, ainda que ela houvesse se submetido ao aborto. Assim, o aborto só é considerado útil na medida em que a gravidez não se tornou pública e ele pode adiar a mudança de identidade de menina a mulher.

Mas relação com o parceiro é fundamental na opção pela maternidade ou desejo de abortar para a grande maioria das informantes.

     “-... Quando eu saquei que estava grávida nós ficamos primeiro em pânico. Depois , aos poucos a gente foi se alcançando... A gente tinha muito medo, mas também tinha uma coisa legal entre a gente, só nós dois sabendo, tendo um problema comum pra resolver... Tinha uma... Sabe? Uma... cumplicidade? É, isso, tinha uma cumplicidade gostosa...” Regina, 15 anos.

A difusão de valores modernos, como maternidade retardada, trabalho extralar, estudo e melhor qualificação profissional para mulheres, percepção do amor em lugar de maternidade como base de casamento, escolha individual e subjetiva do parceiro, deve, em maior ou menor grau, entrar em conflito com a normalização fornecida pelos modelos mais tradicionais. É preciso que as famílias possam estar em constante discussão sobre essa dinâmica toda, para melhor educar-se e a seus filhos, especialmente no que se refere à sexualidade.

Outra grande questão de saúde pública em relação aos nossos adolescentes, é a Aids. Na conferência sobre a Aids realizada em março deste ano no norte da Alemanha. em Bremen, relatou-se um número aproximado de 40,3 milhões de pessoas infectadas no mundo, mais da metade na África. Isto considerando-se apenas os casos registrados. Esta Conferência estabeleceu prioridades, junto ao presidente do Programa das Nações Unidas contra a Aids (UNAIDS) Peter Piot. Entre elas garantir que esses 40,3 milhões de pessoas com Aids tenham acesso a tratamentos adequados, vidas sem discriminação e a luta para retirar, da epidemia, todos os tabus que a caracterizam. Dessas 17,5 milhões são mulheres e 2,3 milhões em crianças abaixo de 15 anos.

Quase metade dos novos casos de Aids no mundo ocorre entre jovens com idade entre 15 e 24 anos. Desses jovens, metade são do sexo feminino.

     “-..Se a gente é gorda e negra, não arruma namorado bacana não. Todas as meninas contam quem “ficou “ com elas. A gente só tem cara bacana que fica com a gente, se a gente fizer mais coisas com eles. Não é só beijar na boca não. E se falar de camisinha, pode espantar os caras...” Marlene, 16 anos.

Testar mulheres grávidas rapidamente, é um dos pontos chaves no tratamento e prevenção da Aids no que se refere a prevenção vertical de mãe para filho, pois em nosso país como na África a Aids está feminizada e inserida na violência contra a mulher.

Sabemos que a transmissão sexual é responsável por 85 por cento dos casos de Aids e que usar o preservativo é 10000 vezes mais seguro que não usar. Muitas vezes o não uso de preservativos está ligado ao uso abusivo de álcool e outras drogas, ou aos chamados namoros firmes, onde os jovens justificam que seu uso pode gerar desconfiança quanto à fidelidade do casal. Outras jovens, seguindo padrões de conjugalidade aprendidos com suas mães e avós, abrem mão do preservativo por medo de serem abandonadas ou maltratadas física, moral e psicologicamente por seus parceiros. Também o fato de estarem apaixonadas, faz com que essas jovens criem falsas imagens de segurança. Aliás, como suas mães o fazem em relação à fidelidade no casamento.

Outro fator de vulnerabilidade dos jovens ao HIV, é a mídia que faz grande apelo erótico ao adolescente, unificando padrões de comportamentos sexuais como algo não planejado, carregado de mitos e preconceitos, como por exemplo, de que o uso do preservativo pode dificultar a ereção e o desempenho sexual.

No Brasil estima-se que 600 mil pessoas sejam portadoras do HIV e que 30 milhões estejam infectadas por alguma doença sexualmente transmissível. Este quadro é visto em pessoas a partir de 14 anos de idade, especialmente em pessoas suscetíveis à infecção, adoecimento e morte pelo HIV, por vulnerabilidades que envolvem: baixa auto-estima, falta de informação sobre riscos à saúde, sentimentos de exclusão, baixa escolaridade, dificuldades em acesso rápido a serviços de saúde, intolerância à diversidade sexual, especialmente relacionadas à orientação sexual, questões de gênero, mitos e tabus sobre a sexualidade: direitos  reprodutivos e violência sexual doméstica, entre outros.

A representação do brasileiro como povo altamente sensual e sexualizado, remonta às primeiras representações dos exploradores e descobridores do país, onde se geraram, por descontextualizações culturais, racismo e ordem moral judaica cristã, os primeiros mitos do brasileiro como libidinoso .e desinibido. A interação sexual com mistura das três raças: o índio, o negro e o europeu, facilitou a crença de que o ambiente em que começou a vida brasileira, foi de intoxicação sexual. Herdamos distinções entre formas de expressão sexual legítimas e ilegítimas, organizadas em torno da monogamia e da procriação, onde sexo fora do casamento heterossexual é pecado, que mantém no silêncio as práticas sexuais de cada um, revelado pela expressão popular de que “entre quatro paredes tudo pode acontecer”  E, ainda a manutenção de conceitos de excitação sexual, prática erótica, diversão e agressão, conceitos estes, ligados num único complexo simbólico em que há um sistema de referência erótica no qual as transgressões  sexuais masculinas, ainda são implícita e explicitamente contextualizadas como positivas e esperadas, na manutenção de uma virilidade masculina “naturalizada”.

Com o advento dos anos sessenta e da pílula anticoncepcional, época de possibilidade de disjunção entre o sexo erótico e reprodutivo no Brasil e no mundo, a possibilidade da atividade sexual irrestrita significava a promessa da democracia, a quebra da hierarquia e da dominação do modelo patriarcal herdado.

Nesse cenário surge a Aids na década de oitenta, enfatizando a homofobia enquanto definida como peste gay, sendo a doença da moral quando sugeria os grupos de risco entre gays, prostituas e promíscuos e deixando abertas as entradas para a chamada sagrada família, contaminada por atitudes de vulnerabilidades em mães, santificadas personagens da nossa sociedade, que se calaram das DSTs mesmo após o surgimento da penicilina.

Temos então, nas questões de gênero, de relação homem-mulher, de duplo padrão de moralidade, de religiosidades dissociadas das realidades das vidas de seus fiéis, dos mitos e tabus da sexualidade ainda invisível para se esconder dos pecados e acusações de anormalidades; das fugas da morte como realidade controlável pela medicina moderna; de longevidade e promessas de eterna juventude da indústria capitalista, da crença de que  a chamada terceira idade traz imunidade da santificação do amor romântico que inibe a objetividade, da ilusão de que somos livres sem responsabilidades e auto-estima; os elementos co-fundantes da Aids Imaginária, que nos coloca, brasileiros e cidadãos do mundo, de crianças a idosos, como “soro interrogantes” (sem saber se somos HIV positivo ou negativo, porque raramente fazemos os testes), vulneráveis à infecção do HIV em moldes similares aqueles que testemunham a dizimação de várias populações africanas.

Tenho desenvolvido dissertações  e teses de mestrado, doutorado e pós doutorado com as denominadas pesquisas-ação, onde a pesquisa se dá concomitante a intervenções nos grupos pesquisados, onde a observação participante da pesquisadora é considerada, na luta contra a chamada “africanização” da Aids no Brasil. Estes trabalhos têm sido realizados no Núcleo de Família e Comunidade do Programa de Pós Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em parcerias com diversas instituições e ONGs como a F&z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde de São Paulo, A Associação Saúde da Família de São Paulo, a AIDSCAP Rapid Response Fund, a Elton John Aids Foundation, o Rotary Club do Brasil, especialmente o do Butantã, entre várias outras do setor público e privado do Brasil.

O Sociodrama Construtivista da Aids é um método de psicoterapia e educação psicosocial grupal que propõe a co-construção de novas verdades, legitimadas e desconstruídas pelo grupo em ação, na busca de saídas factíveis para as realidades psico-sócio-culturais do mesmo, embasadas no sistema de crenças e valores aprovados pelos mesmos. O terapeuta e/ou o educador sociodramatista construtivista participa do grupo como um elemento a mais, na busca dessas saídas e resoluções, enquanto facilitador dessa desconstrução de mitos, tabus e crenças, pela proposta da dramatização de personagens sociais, representativos no micro, no macro grupo social, em seus aspectos co-conscientes e co-inconscientes sobre os temas trabalhados em conjunto.

Atualmente esta luta consiste num novo Projeto que pretende alcançar cerca de 15 mil adolescentes  carentes de 11 a   20 anos de idade, das quintas às oitavas séries do Ensino Fundamental e das três séries do Ensino Médio, da periferia do Butantã.

A nossa hipótese é de que criados e oferecidos estes espaços de legitimação das subjetividades destes adolescentes e da intersubjetividade pela vivência grupal,  os mitos, valores e crenças que dificultam e/ou impedem atitudes sexuais de menores riscos e vulnerabilidades ao HIV/Aids e à gravidez precoce, sejam modificados através de maiores sensibilização e conscientização de recursos pessoais, que os ajudem a resignificar comportamentos preventivos como força pessoal, de auto estima e de “empoderamento” contra esta enfermidade.

Famílias, escolas e adolescentes: são o tripé para a saúde sexual.

 

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* Prof Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
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Ana Maria Fonseca Zampieri
anamfzampieri@uol.com.br
São Paulo
– São Paulo – Brasil
Doutora, Mestre e pós doutoranda em Psicologia Clínica. Psicóloga. Psicodramatista. Sexóloga. Terapeuta de Casais e Famílias. Autora dos livros: Sociodrama Construtivista da Aids (Ed Psy, Campinas, 1996) e Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade. A prevenção do HIV e da Aids no Casamento. (Editora Agora, São Paulo, 2003) Coordenadora de Cursos de Pós Graduação em Terapia de Casais, Sexualidade e Psicodrama em São Paulo , Brasília e Goiânia. Consultora de Programas de Prevenção de Aids e Violência Sexual em diversas ONGs do Brasil e do exterior.

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