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RESGATE EMOCIONAL DOS MINEIROS CHILENOS.
SOMOS CO-RESPONSÁVEIS?

Ana Maria Fonseca Zampieri, Ph.D.


           Em 13 de outubro deste ano, após 69 dias de confinamento, a cápsula FÊNIX 2, às 0:10 h do Chile, emergiu com o primeiro mineiro resgatado: o Sr. Florencio Avalos, que foi recebido por braços e abraços emocionados de seu filho de 7 anos e sua mulher e, logo depois, do presidente Sebastian Piñera. Metaforicamente, um parto presenciado por centenas de pessoas, num acampamento de apoio e entorno emocional, afetivo, ansioso, agitado e super energizado, não apenas denominado de Esperanza, mas simbolizado pelo desejo e a fé e partos exitosos, de um útero de 33 gemelares a 622 metros de profundidade.
           O mundo fez o papel de platéia, e um simbolismo universal, em vários credos e línguas, projetavam os mais profundos dilemas humanos entre a vida e a morte, entre a impotência e a capacidade de salvamento, da inédita operação de resgate San Lorenzo.
           Quem de nós, desde Platão, não tem medo e atração por mistérios de cavernas escuras, e essa, concretizada nas entranhas da Terra? Uma história que supera qualquer projeção de um reality show, com a espetacularidade hollywoodiana; mas também com a intensidade de solidariedade e emoção mundial! Uma emoção de compartilhar um destino coletivo, em situações limites da experiência humana, onde perfis psicológicos ganham palco para novos e específicos papéis de heroísmo digno de uma odisséia, que ultrapassa a do grupo de 33 e atinge a da espécie humana. Neil Armstrong, na odisséia lunar, disse que dava um passo pequeno como homem, mas um salto para a humanidade. O resgate da mina San Jose, no Chile, pela capsula Fênix 2, resgatando homens submetidos a um grande pesadelo humano, que é o de ser enterrado vivo, teve conotações de mitos, como o do pássaro Fênix, que renasceu das cinzas.
           A frase do primeiro mineiro resgatado pela Fênix 2 foi: “Oxalá o exemplo dos mineiros fique para sempre conosco, porque os mineiros demonstraram que, quando o Chile se une, somos capazes de qualquer coisa”. Assim enaltecia Avalos, a força mítica da união e do amor, aliados à tecnologia. Tentemos substituir, nessa frase, a palavra Chile por: família, equipe, amantes, casais, irmãos, partidos, empresas e grupos, entre outros, e observemos como ela é protagônica de nossos anseios humanos.
           Trauma é um estado severo de medo, que vivenciamos quando somos confrontados com um evento repentino e inesperado, potencialmente ameaçador à vida, sobre o qual não temos nenhum controle (Flannery, 1994). O trauma acontece quando o organismo é forçado além de sua capacidade adaptativa, para regular os estados de ativação de luta ou fuga.
           Como o trauma se apresenta? As lembranças do trauma geralmente estão fragmentadas em imagens, sons, odores, sensações físicas (náuseas, tonturas e outras) ou emoções (aversão, nojo, medo, pavor, raiva, tristeza) não integradas a outras memórias autobiográficas. Estímulos relacionados ao evento traumático, específicos e/ou genéricos, podem reativar as memórias que retornam muito mais fortes que uma simples recordação, com nitidez visual e forte expressão emocional, provocando a revivência do evento que foi traumagênico.
           Moty Benyakar (2006), psiquiatra e grande pesquisador argentino desta temática, diz que a noção de trauma é inerente à complexidade da existência humana e que a área da traumatologia estuda as conseqüências psicossociais mediatas e imediatas dos eventos disruptivos, que podem ocorrer.
           Trabalhamos enquanto psicoterapeutas, com crianças, adolescentes e adultos, com histórias de traumas, com terapia de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) ou Movimento Ocular, Dessensibilização e Reprocessamento. Esta abordagem terapêutica busca a integração emocional e cognitiva da experiência que resultou em trauma.
           Shapiro (2002), criadora do EMDR, diz que a busca do processo de informação adaptativa facilita ao terapeuta um procedimento para identificar os acontecimentos passados que contribuem ao problema, os acontecimentos atuais que o desencadeiam e as habilidades e recursos internos que necessitam ser incorporados, para uma vida plena e saudável.
           Pesquisas em mais de 70 países mostram como o EMDR traz bons resultados com pessoas vítimas de um único acontecimento traumático (Rubin, 2003), com cerca de algumas sessões (3 a 8) de 90 minutos. Com situações de trauma repetidos, como abusos sexuais, físicos e psicológicos ao longo da infância, o tratamento exige um tempo bem mais longo, dependendo do caso.
           O trabalho do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP) nasceu da concepção de nossa crença na busca do desenvolvimento de forças internas dos desabrigados e danificados de catástrofes naturais e provocadas pelo homem, para a construção de entornos de redes sociais e emocionais mais resilientes nos indivíduos e nos grupos.
           Neste Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP) ganhamos como parceiros inestimáveis, jornalistas da Associação Brasileira de Jornalistas de Empresas, ABERJE, que, atendendo aos nossos apelos de apoio para essa educação da população afetada por catástrofes, criaram o chamado Comunicadores Sem Fronteiras (CSF), cuja meta é, através dos recursos da mídia local, passar informações às pessoas sobre o funcionamento do PAHP no local, bem como sobre os sintomas esperados nessas circunstâncias.
           Os efeitos mentais das catástrofes podem acarretar estresses pós-traumáticos e gerar sequelas altamente danosas ao desenvolvimento das futuras gerações. Em contextos sociais pós-catástrofes, são potencializadas as mazelas da pedofilia, do abuso sexual intrafamiliar, das agressões dos mais diversos níveis, do abandono das crianças, do desligamento social dos adultos, do abandono das atividades cotidianas, da desestruturação da família e do desaparecimento das perspectivas de futuro.
           Ressalto que não apenas as pessoas danificadas diretamente e que perderam seus lares, ou ficaram confinados, como os 33 mineiros chilenos, precisam de um trabalho psicológico, mas, também, seus familiares e todos os envolvidos no evento, como: socorristas, médicos, enfermeiros, bombeiros, militares, policiais e voluntários, entre outros.
           Atendemos nestes PAHP, seis mil pessoas e capacitamos 180 psicólogos junto ao Rotary de São Paulo – Butantã, de Blumenau, Ilhota, Gaspar e Guaraciaba, de São Luís do Maranhão, de Santana do Parnaíba em São Paulo e de Niterói na queda dos morros ente ano. Com a filosofia de que uma Psicologia para a Humanidade é um compromisso de cidadania e de comprometimento da ciência nesta era pós-moderna. O que acontecerá e está acontecendo no mundo interno desses 33 seres humanos?
           Em primeiro lugar, lembrar que nem todos que vivem um evento traumatogênico, ou seja, que tem potencial traumático, terá problemas a posteriori.
           O entorno familiar e social colaborarão para essa especulação diagnóstica. Evitar ao máximo super exposição e super proteção, são eficazes recomendações. Todos foram danificados pelo evento, mas não necessariamente vitimizados. As vítimas se enfraquecem e os danificados buscam tratar-se e evoluir. Isto não é um jogo de palavras, mas sim um alerta a que tipo de construções, mais ou menos saudáveis emocionalmente, podemos elaborar coletivamente, nas relações humanas.
           Há pesquisas que mostram que sintomas e sinais pós-incidentes críticos, podem surgir bem mais tarde, até em torno de dez anos. Portanto, terapias que se propõem a tratar preventivamente esses 33 mineiros são recomendáveis. O EMDR é uma abordagem terapêutica altamente indicada para estas situações. Sugiro, ainda, que se indiquem terapias de prevenção, com EMDR, para as chamadas traumatizações secundárias, ou seja, dirigidas aos que vivenciaram indiretamente o drama da mina; aos familiares e pessoas da comunidade que convivem com esses homens. Se o contexto local, social e familiar for tratado, esclarecido e orientado, terão, esses mineiros, uma sustentação de entorno altamente terapêutica e preventiva.
           Outra questão, dentro desta complexidade, são os aspectos idiossincráticos de cada um dos 33 mineiros, nos níveis: biológico, de personalidade, de traumas anteriores vividos, tratados ou não; de influência de recuperação emocional aprendidas em suas famílias, cultura e religiões; além dos aspectos espirituais, entre outros.
          
Vejo um grande risco do entorno mundial desses 33 mineiros: o da simplificação, negação, minimização ou maximização do que seus medos internos elaborarão a partir desse “soterramento” dos “partos” da Fênix 2. Se pudermos ser um sustento emocional seguro e ponderado, onde eles não serão heróis nem vítimas; onde eles não serão levados, inconsequentemente, às alturas de gloriosos, para abandonos posteriores; poderemos ser, direta ou indiretamente, co-responsáveis por suas recuperações e crescimentos a partir desse horror vivido. Apostemos nisso!

        



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