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Sociodrama Construtivista da Sexualidade de Casais
na Prevenção de HIV e AIDS no Casamento.
 

Ana Maria Fonseca Zampieri    e    Rosa Maria Stefanini Macedo

  RESUMO:     

             Neste artigo as autoras apresentaram pesquisas quantitativas e qualitativas com três grupos de casais heterossexuais, contendo cada grupo nove casais, sobre o método, designado de Sociodrama Construtivista, capaz de promover, com eficácia a prevenção do HIV e da AIDS nos casamentos brasileiros. Propõem que a sociedade brasileira, através das responsabilidades de empresas nacionais e multinacionais, enquanto questão de cidadania, faça este tipo educação preventiva para seus funcionários. As 
três empresas onde foram feitas as pesquisas, recebem os nomes de: A, B e C e são, respectivamente: multinacional de telecomunicações, de Curitiba, no estado do Paraná; multinacional de construção de caminhões pesados, de São Bernardo do Campo, em São Paulo e multinacional de construção de elevadores, de Sorocaba, em São Paulo. Os casais da empresa A são universitários de classe média alta; os da B têm segundo grau e são de classe média e os da empresa C, têm primeiro e segundo graus de escolaridade e são de classe social média baixa. Todos participaram de oito Sociodramas com cerca de três horas cada um, com intervalos quinzenais, durante quatro meses. Este artigo articula os resultados quantitativos e qualitativos desta pesquisa aos estudos de teóricos da sexualidade humana e da AIDS, especialmente ligados à cultura ocidental, latina e brasileira. Com isto, propõem o método chamado de: Sociodrama Construtivista da Sexualidade Conjugal na Prevenção do HIV e da AIDS no Casamento, como método de eficácia comprovada para tal finalidade preventiva. Nos resultados obtidos, temos que as pesquisas quantitativas, após as vivências dos Sociodramas Construtivistas, comprovam como esse método desconstrói mitos, tabus e crenças ligados à sexualidade conjugal, bem como favorece a concepção de consciência de risco, dos casais pesquisados, ao HIV e à AIDS.

Unitermos:

Sexualidade. Casamento. HIV. AIDS. Sociodrama. Construtivismo. Grupos. Casais. Empresas. Prevenção.

Em 1994, a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre a População e Desenvolvimento, que aconteceu no Cairo, falou da saúde como sendo um estado de bem estar físico, mental e social e não, portanto, de mera ausência de enfermidades. Entendemos, a partir daí, que a saúde sexual deva dar às pessoas a capacidade de desfrutar de uma vida sexual satisfatória e sem riscos de enfermidades, onde os gêneros masculino e feminino possam ter a liberdade de decidir como, com quem e com que freqüência ter relações sexuais. E que estas relações possam fazê-las sentirem pertencentes aos seus grupos sócio-familiares, sem conflitos de individualidades e de poder baseados em diferenças pessoais.
            Sabemos que os temas sexualidade e AIDS ainda são tabus em nossa cultura. Sexualidade e reprodução permanecem como idênticas em várias pessoas. Quando, por exemplo, a ciência destes últimos três anos, anunciou que poderia produzir o primeiro ser humano a partir da clonagem, a meta sexual de homens e mulheres ficou abalada. O choque cultural após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, fez com que os costumes da religião mulçumana ficassem em evidência e, com eles, o direito dos homens à poligamia e à repressão da mulher. Neste ano de 2002, vários escândalos de padres católicos, que abusavam sexualmente de meninos nos Estados Unidos e na Europa, colocaram o foco de luz do cenário sexual, na questão do celibato do clero e na homossexualidade. Em São Paulo, um famoso hebiatra sedava seus pacientes, para deles abusar sexualmente e assim, a pedofilia foi questão de debates no Brasil. Atualmente uma jovem mulher da Nigéria, espera acabar o período de amamentar seu bebê, para ser morta por apedrejamento, por ter sido infiel a seu marido.
            No que refere à AIDS, falar de controle da sexualidade, remete as pessoas ao controle de suas vidas que poderes religiosos e políticos já fizeram para se estabelecer como força na sociedade. A AIDS foi ligada à homossexualidade masculina e reencena os argumentos oficiais da Igreja, como aqueles em que Deus teria mandado destruir as cidades de Sodoma e Gomorra porque havia relacionamentos homossexuais (gays da época) e assim, estava instalado o problema do sexo sem procriação. Hoje ainda há pessoas que pensam que a AIDS é um outro castigo divino.
            Em nosso país, a consciência sobre o risco da AIDS existe, mas quando se trata de mulheres casadas, que desempenham os papéis de esposas e de mães, estas negam, muitas vezes suas vulnerabilidades, porque isto pode agredir os campos demarcados fortemente das representações de gênero que orientam todo o panorama das suas identidades sexuais. Quanto ao homem casado, esta consciência de risco à AIDS esbarra, muitas vezes, na definição de masculino, que se dá prioritariamente por oposição ao feminino e nas defesas de sua masculinidade, que não deve ser questionada.
            Ficamos, como pesquisadora, terapeuta sexual, terapeuta de casais e psicodramatista, interessadas nas possibilidades de investigações sobre sexualidade e AIDS, desde 1982. Sabemos das lentidões das mudanças nos comportamentos sexuais, da pluralidade das trajetórias e biografias sexuais das pessoas e das dificuldades de comunicação que elas têm sobre estes temas, ligados a outros igualmente considerados tabus como: satisfação erótica dos casais, infidelidade sexual, posições sexuais e orgasmo, entre tantos outros. Como psicodramatistas, temos a experiência de trabalhar com Sociodramas Construtivitas com grupos, através das representações de papéis sociais dramatizados no enredo co-construído pelo grupo, o que facilita mudanças de visão de mundo e de atitudes em vínculos profundos. Tudo isto vem se processando e se articulando no mundo profissional da pesquisadora, durante os últimos vinte anos.
            Em 1996 apresentamos nossa dissertação de mestrado em Psicologia Clínica, onde os resultados finais de pesquisas sobre AIDS em grupos de crianças, adolescentes e adultos, apontavam para uma caracterização brasileira desta enfermidade, ligada à heterossexualidade. Naquela ocasião colocávamos como hipótese, para o ano 2000, ser a mulher, esposa e mãe, o principal protagonista do HIV e da AIDS, no cenário brasileiro. Falávamos, então, da similaridade da AIDS brasileira à AIDS africana, onde predominantemente os heterossexuais são os mais infectados. Infelizmente esta hipótese se concretizou.
            Esta foi uma de nossas motivações básicas, para as pesquisas e para os estudos desta dissertação de doutorado em Psicologia Clínica: a infecção do HIV e da AIDS nos casais brasileiros e, mais precisamente, como promover esta prevenção.
 
           Em discussões com nossa orientadora, a professora doutora Rosa Maria Stefanini de Macedo, vimos que seria importante propor pesquisas quantitativas que avaliassem as conceituações dos casais sobre HIV, AIDS e sua prevenção, antes de fazer com que esses casais vivenciassem a possibilidade de uma educação preventiva eficaz quanto a essa enfermidade. Outro aspecto discutido e por nós especialmente desejado, foi o de poder avaliar o método por nós chamado de Sociodrama Construtivista, apresentado igualmente em nossa dissertação de mestrado, como de fato de ser eficaz para a prevenção de HIV e de AIDS e, desta vez, na prevenção para casais heterossexuais casados.
            Pensamos que esta metodologia (método), que passamos a denominar de Sociodrama Construtivista da Sexualidade Conjugal na Prevenção de HIV e de AIDS no Casamento, deveria explorar os mitos, crenças e valores articulados à sexualidade conjugal e cujas desconstruções favoreceriam dois aspectos simultaneamente: a melhoria da qualidade sexual dos casais e suas sensibilizações e conscientizações quanto a terem atitudes sexuais que os deixam vulneráveis ao HIV e à AIDS.
            Outra questão por nós valorizada é a responsabilidade social de empresas quando à saúde sexual e à prevenção de HIV e de AIDS de seus funcionários. Desta forma nasceu a proposta de efetuarmos estas pesquisas interventivas nos locais de trabalho. Contávamos com a possibilidade dessas pesquisas promoverem um efeito multiplicador dentro das relações profissionais dos pesquisados. Então, propusemos que a pesquisadora, junto aos casais pesquisados, fizesse, a partir dos resultados obtidos, Manuais de Educação Sexual para Casais, os quais seriam distribuídos por eles em suas redes profissionais e familiares. Para incentivar isto, pedimos aos casais pesquisados que fizessem dedicatórias para pessoas de suas vidas privadas, dedicatórias estas que fariam parte dos Manuais de Educação Sexual para Casais. Estes manuais podem ser vistos no Volume III deste trabalho.
           
Conseguir estes espaços nas empresas, foi a parte mais difícil de nosso trabalho. Foram necessárias inúmeras reuniões, com infindáveis questionamentos por parte de seus responsáveis, habitualmente médicos do trabalho, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais. De quinze empresas consultadas no Brasil, apenas três concordaram e aceitaram nossa proposta. Uma delas, a primeira, em Curitiba no estado do Paraná, que aqui chamaremos de empresa A, com nove casais de classe social média alta e universitários. A outra, chamada por nós de empresa B, tem nove casais com níveis de instrução de segundo grau e de classe social média, que fica em São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. E, por fim, a chamada empresa C, com nove casais de classe social média baixa e com níveis de instrução de primeiro e segundo graus. Todos estes casais tiveram participações voluntárias a partir de convites do serviço médico de suas empresas. Também foram voluntárias as participações de seus cônjuges.
            Estes casais permitiram e autorizaram que as pesquisas realizadas com eles, pudessem ser filmadas para estudos posteriores da pesquisadora e, ainda, para a confecção de uma fita de vídeo, com edição de momentos selecionados por ela, para fazer parte dos anexos deste trabalho. Estas fitas de vídeo, com duração de uma hora, privilegiam momentos fundamentais destas pesquisas e encontram-se no Volume III deste trabalho.
            Em síntese, esta dissertação objetiva promover e avaliar quantitativa e qualitativamente a metodologia do Sociodrama Construtivista, para conhecimento da sexualidade conjugal brasileira, na prevenção do HIV e da AIDS. Além disto, busca subsídios para novas propostas de educação preventiva desta enfermidade.
          
Os recursos teóricos utilizados são os de estudiosos da sexualidade humana e da AIDS, primordialmente. Entre estes autores estão médicos, sexólogos, antropólogos, sociólogos, assistentes sociais, psiquiatras, teólogos e psicólogos cientistas do século XX e XXI, como se pode observar na bibliografia deste trabalho.
           Apresentamos, agora, o conteúdo desta dissertação. Iniciamos com o capítulo I chamado: A Dança dos Hormônios na Sexualidade Conjugal, onde se encontram estudos que relacionam os hormônios, diferenciados por gênero masculino e feminino, bem como suas influências nas sexualidades dos casais em seus vários estágios de desenvolvimento e nos diversos ciclos de suas vidas sexuais.
            No capítulo II, que chamamos de: Gênero e Sexualidade Conjugal, apresentamos diversos estudos sobre gênero, diferenciados em sub-itens assim designados: história, biologia, repressão sexual, masturbação, orgasmo, sexo oral, sexo anal, bissexualidade, uso do preservativo, mitos e posições sexuais. Estendemos este estudo como primordial para a compreensão de atitudes sexuais de homens e de mulheres brasileiras.
            Como consideramos importante para a educação sexual preventiva do HIV e da AIDS para casais, a diferenciação entre sexo reprodutivo e sexo erótico, desenvolvemos o capítulo III em torno de conceituações do erotismo na vida conjugal e de sua repressão na história da sexualidade humana ocidental. Estes fatos, a nosso ver, interferem substanciamente nas atitudes e na saúde sexual dos casais de nossa cultura. Nesta perspectiva construímos o capítulo III, por nós chamado de: Erotismo e sexualidade na vida conjugal.
            A Infidelidade Conjugal no Casamento Ocidental é o capítulo IV desta dissertação. Nele discorremos sobre como se compreende e como se desenvolvem atitudes de infidelidade sexual nos casamentos da cultura ocidental. Focalizamos, também, os mitos e as conseqüências destas infidelidades nos casamentos em geral, sob enfoques biológicos, sociais e psicológicos. Este capítulo tem grande importância na compreensão de como o HIV é transmitido entre os casais heterossexuais.
           
Como último capítulo teórico, apresentamos o quinto, chamado de: HIV e AIDS no casamento brasileiro. Nele, discutimos, após a apresentação da história do HIV e da AIDS no mundo, as diversas dinâmicas que a infecção desta enfermidade tem, especificamente, nos casamentos heterossexuais brasileiros. Neste capítulo observamos, ainda, como a maioria das pessoas casadas diz conhecer adequadamente os mecanismos de transmissão da AIDS, mas como, também, isto não modifica suas atitudes de vulnerabilidade a esta doença. Analisamos, ainda, a dificuldade de se alterar comportamentos sexuais de risco, porque estes seguem lógicas diferentes das difundidas por profissionais de saúde pública, em geral. Consideramos ser este capítulo uma contribuição importante para quaisquer programas de prevenção de HIV e de AIDS para casais brasileiros.
            Após todas estas considerações teóricas, apresentamos a pesquisa propriamente dita, no item que chamamos de: Sociodrama Construtivista da Sexualidade Conjugal na Prevenção do HIV e da AIDS no Casamento. Nele estão as questões-problema desta pesquisa; seus objetivos e método; a população pesquisada identificada, inclusive com um genograma simplificado da família nuclear destes casais e as transcrições ipsis literis de todos os doze Sociodramas Construtivitas realizados nas três empresas. Os resultados obtidos a partir de análises qualitativas estão contidos neste item. Os resultados quantitativos, com seus gráficos e percentuais, encontram-se no Volume II deste trabalho. No Volume I, ainda, encontram-se todas as análises, de todos os resultados desta pesquisa.
            Nas Considerações Finais articulamos toda a teoria estudada com os resultados obtidos nas pesquisas quantitativa e qualitativa e propomos a metodologia designada: Sociodrama Construtivista da Sexualidade Conjugal na Prevenção do HIV e da AIDS no Casamento, como um método comprovadamente eficaz para sua finalidade.
            Sugerimos, como evidenciam todos estes itens, que a qualidade sexual dos casais brasileiros seja desenvolvida junto à educação preventiva de HIV e de AIDS, por acreditarmos que saúde e doença formam um contínuo reversível. As crises que por ventura, este método possa provocar nos casais, deverão ser entendidas como possibilidades motivadoras para comportamentos de saúde sexual. Entendemos que o crescimento destes casais deva acontecer através de encontros empáticos, com todas as suas vicissitudes e peculiariedades, como veremos nos Sociodramas Construtivitas aqui descritos.
            Sabemos que a sexualidade conjugal não pode ser reduzida a pontos de vista particulares específicos, mas que precisa de uma abordagem sistêmica, onde a trama de aspectos clínicos, hormonais, psicológicos, culturais, antropológicos, sociais e comportamentais, entre tantos outros – tem múltiplas, complexas e infinitas combinações. Quando discutimos a questão da sexualidade de um casal, seja no setting terapêutico ou no educacional; estamos efetuando um corte, uma seleção desta complexa realidade. Apenas selecionamos um tema protagonista para o nosso trabalho, porém não pretendemos abstraí-lo de toda a sua rede de complexidades, em constante dinamismo e interinfluências.
            No que diz respeito aos aspectos clínicos ou orgânicos da sexualidade humana, selecionamos a questão dos hormônios, pelo interesse que este tema nos desperta nas relações de desejo, de buscas, de encontros e desencontros no cenário da sexualidade dos casais. Buscamos ainda, compreender a interferência que a diversidade hormonal entre homens e mulheres e entre as suas várias fases de ciclo de vida, promove em questões de sexualidade conjugal e infidelidade sexual no casamento.
 
           Em nome dos complexos dinamismos e diversidades dessas combinações hormonais nos ciclos no desenvolvimento da sexualidade humana, entre homens e mulheres, é que chamamos este capítulo de A Dança dos Hormônios Sexualidade Conjugal. Faremos uma breve revisão dos aspectos hormonais, suas funções e diferenciações sexuais segundo o gênero e de como isto faz parte do cotidiano da vida sexual dos casais.
            Na sexualidade humana distinguimos os componentes biológicos e socioculturais. O sexólogo colombiano Alzate (1997) nos diz que esta é uma divisão metodologicamente útil, porém incorreta já que a sociedade e a cultura também são produtos da biologia, posto que os fenômenos socioculturais - que têm origem em atos psíquicos - são gerados por mecanismos neurofisiológicos e culturais. O componente biológico constitui o substrato comportamental. Este, por sua vez, determinado pela cultura, possui influências positivas ou negativas sobre o comportamento biológico.
            A mais antiga função da sexualidade humana é a reprodução e a mais moderna, o prazer. Podemos dizer, de acordo com pesquisas de Alzate (1997) que noventa e nove por cento dos coitos que um casal tem durante sua vida conjugal, é para a busca do prazer. Desta forma, a importância do erotismo na vida sexual do ser humano, é um produto do processo evolutivo da hominização. Há um certo orgasmo em alguns macacos, porém mais vegetativo e indiferenciado que erótico. Comparado a todos os outros animais, o homem tem um mundo muito mais amplo, dado seu grau de inteligência biológica, onde surgem as funções da linguagem, do simbólico e da função erótica.
            Identificamos fatores de vulnerabilidade dos casais à infecção ao HIV e a AIDS antes dos Sociodramas Construtivistas, como:

      *Pouca comunicação de seus desejos sexuais, o que facilita a concretização dos mesmos em relações extraconjugais.
*Baixa conscientização sobre o acordo tácito que há entre os casais, sobre a infidelidade sexual, especialmente dos maridos.
*A crença ainda persistente, de que pessoas casadas não correm o risco de serem infectadas pelo HIV.
*Negação sistemática de esposas da infidelidade dos maridos, para manterem seus casamentos.
*A crença entre os casais de que o cônjuge que ama, confia totalmente na fidelidade sexual de seu parceiro.
*Definições de sexo seguro como proposta de fidelidade sexual no casamento.
*A recusa a adotar sexo seguro no casamento, pelo fato de isto poder quebrar o mito da fidelidade sexual conjugal absoluta entre os cônjuges que se amam.
*A submissão de esposas em não negociar o uso do preservativo com seus maridos sabidamente infiéis.
*A submissão de esposas em não exigir o preservativo, por este interferir na sensibilidade peniana de seus maridos; apesar de não diminuir o prazer deles e nem o delas.
*A crença de que maridos só procuram relações sexuais extraconjugais, se não estiverem satisfeitos sexualmente no casamento.
*Questões de gênero, fruto de cultura machista, onde as esposas preferem correr o risco de serem infectadas pelo HIV, por maridos sabidamente infiéis sexualmente, do que serem separadas ou divorciadas.
*Tendência de esposas a não perceberem ou negarem a bissexualidade de seus maridos e da busca deste orgasmo, por parte das esposas, em relações extraconjugais.
*Ignorância ou pouco conhecimento de maridos e de esposas sobre a dinâmica do orgasmo feminino.
*Atitudes homofóbicas dos casais, que impedem a vizualização de comportamentos bissexuais dos maridos.
*O hábito de esposas fingirem o orgasmo, dificultando seus desenvolvimentos sexuais no casamento e a possibilidade desta busca em relações sexuais extraconjugais.
*O mito de que parceiras sexuais extraconjugais, que sejam limpas e com boa aparência, não têm o HIV.
*A aceitação de relações sexuais durante o ciclo menstrual da esposa, sem uso de preservativos.
*A preferência de maridos por sexo anal, praticado em maior freqüência em relações sexuais extraconjugais e sem o uso do preservativo.
*Práticas de sexo oral (felação e cunilingus) sem o preservativo.
*A crença de que o decorrer do tempo do casamento naturalmente esgota os recursos de reavivá-lo, sexualmente falando; exceção feita à esposa, promovendo uma disponibilidade à busca do prazer e de novidades sexuais fora do casamento e sem o uso do preservativo ou atitudes de práticas de sexo seguro, por parte dos maridos.

            Finalmente, estas análises dos resultados dos questionários aplicados antes e depois dos quatro Sociodramas, mostra-nos a eficácia desta metodologia para educação preventiva de casais em relação ao HIV e a AIDS, especialmente nas modificações de respostas em relação a:

      *Aumento da abertura e comunicação de diálogos sobre sexualidade entre os cônjuges; com os  
 filhos, amigos, colegas de trabalho e profissionais de educação e saúde.
*Alertar para a utilização de educações preventivas que privilegiem o tripé: pai-filhos-empresas.
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Desmitificações e conscientizações de regras repressivas sexuais decorrentes de desigualdades de gênero, que colocam especialmente as esposas com grande vulnerabilidade ao HIV e a AIDS.
*Efeitos sistêmicos dos Sociodramas Construtivistas nas redes sociais, familiares e profissionais de seus participantes.
*Aumento consideravelmente significativo da conscientização dos casais sobre o risco que, enquanto cônjuges, correm de serem infectados pelo HIV e AIDS.
*Conscientização do acordo tácito e cultural brasileiro que admite a infidelidade sexual do marido e como isto se constitui uma atitude de risco ao HIV e AIDS.
*Discussão e conscientização sobre a fidelidade sexual ser socialmente construída, difícil de ser mantida ao longo do casamento e de como isto é outra atitude de risco ao HIV e AIDS.
*Admissão do pedido do uso do preservativo masculino em todas as relações sexuais extraconjugais.
*Aprendizagem tecnicamente correta e adequada do uso dos preservativos masculinos e femininos.
*Aumento de possibilidades de negociação do uso do preservativo entre os cônjuges, quando houver atitudes de risco em contrair o HIV e a AIDS.
*Desmitificação sobre o uso do preservativo em relações sexuais vaginais, anais e orais.
*Aprendizagem do sexo anal sem dor e com uso do preservativo.
*Admissão da negação que esposas fazem da infidelidade sexual de seus maridos.
*Aceitação da dificuldade das esposas em perceber ou admitir a existência de comportamentos bissexuais de seus maridos.
*Redefinição de conceitos de sexo seguro e homossexualidade masculina.
*Conscientização de atitudes homofóbicas por parte dos casais.
*Conscientização de suas resistências ao uso do preservativo no casamento.
*Conhecimento aumentado sobre especificidades dos orgasmos femininos, por parte de homens e de mulheres e da freqüência com que esposas fingem estes orgasmos.
*Admissão da potencialidade feminina para infidelidade sexual conjugal.
*Conscientização e sensibilização para a importância da abertura para a aprendizagem do sexo erótico, dentro do casamento.
*Desmitificação da masturbação em cônjuges, sua possibilidade de constituir-se em outra forma de sexo seguro, erótica e saudável.
*Possibilidade de pessoas educadas sexualmente e na prevenção da AIDS, constituírem e motivarem-se para serem agentes multiplicadores em suas redes pessoais, sociais, familiares e profissionais.
  

Vemos, portanto, como estas análises quantitativas revelam-nos as peculiaridades das vidas íntimas das sexualidades conjugais; peculiaridades estas, a nosso ver, essenciais em quaisquer projetos de saúde pública e de educação preventiva e da eficácia da metodologia sociodramática enquanto educação transformadora nestas possibilidades de prevenção ao HIV e a AIDS no casamento.
            Observamos, ao finalizar este trabalho, que nossos objetivos em propor e avaliar a metodologia por nós chamada de Sociodrama Construtivista da Sexualidade Conjugal na Prevenção de HIV e de AIDS no Casamento foram satisfatoriamente alcançados. Pudemos ver como mitos, tabus, crenças e valores a respeito da sexualidade conjugal e da AIDS, foram desconstruidos ao longo dos Sociodramas Construtivistas desenvolvidos e, ainda, como isto parece demonstrar uma mudança positiva para a qualidade da saúde sexual dos casais pesquisados.
            Neste momento, gostaríamos de tecer algumas considerações sobre as articulações que fizemos entre os resultados desta pesquisa e os estudos da literatura especializada em sexualidade humana e em AIDS.
            Em termos de evolução, vimos que os seres humanos possuem uma independência maior dos hormônios, que outros animais mamíferos em suas relações sexuais. Isto, então, contribui para a capacitação do sexo erótico independente do sexo reprodutivo, nas vidas sexuais de homens e de mulheres.
            No entanto, nossas pesquisas demonstram, que nos casais dos vários níveis educacionais e culturais com os quais trabalhamos, há, em diversos graus, uma confusão entre o sexo erótico e o sexo reprodutivo, produzida por determinações culturais, religiosas e morais. Para muitas mulheres e homens, a relação sexual só será considerada completa se houver penetração do pênis na vagina e ejaculação do homem. Sabemos que esta é uma das condições para a concepção apenas. Homens e mulheres ao longo de suas vidas sexuais “desnaturalizam” seus potenciais hormonais, de certa  forma “naturalizando-se” como reprodutores, especialmente no que concerne ao gênero feminino.
            Movimentos sócio-históricos colocaram o prazer sexual a serviço dos poderes econômicos, religiosos e ideológicos, como vimos nos capítulos teóricos. Estas determinações, a nosso ver, estão diretamente ligadas a construções de mitos e tabus sobre a sexualidade humana, onde faltam o auto e o hetero conhecimento entre os casais, sobre seus prazeres eróticos diferenciados e isto  torna-os vulneráveis à infecção do HIV, além de a outras doenças sexualmente transmissíveis e gravidezes indesejadas, entre outras questões afins. Isto foi observado nas respostas dos dois primeiros questionários, antes dos casais pesquisados vivenciarem os Sociodramas Construtivistas, onde, apesar de admitirem  suas consciências de risco da AIDS, acreditavam no amor, na confiança e na fidelidade sexual, como sendo o sexo seguro de suas vidas. 
            Há uma certa associação cultural entre masturbação, desenvolvimento da sexualidade e falta de parceria sexual. Quando estudamos a influência dos hormônios na sexualidade humana, vimos que na puberdade existe esta relação estreita entre sexualidade e masturbação, mas não apenas nessa fase e não apenas em homens. A derivação que a cultura faz dos conhecimentos científicos, mais uma vez parece ficar a serviço de uma cultura que privilegia e legitima mais diretamente os desejos e impulsos sexuais do homem do que os da mulher. Antes dos Sociodramas Construtivistas, os casais  em geral, negavam a masturbação da mulher casada ou não consideravam a masturbação a dois como orgásmica. Assim, ficava dificultada a masturbação a dois, como método de sexo seguro contra o HIV.
           
Outra questão importante sobre a “aculturação” da sexualidade humana é a negação que aprendemos a fazer dos odores naturais dos seres humanos como excitantes e despertadores do desejo. Os estudiosos dos hormônios mostram-nos como há influências dos odores na atração sexual e nos comportamentos entre os casais. Será que a tecnologia e a indústria puderam e podem manipular quais são esses odores mais provocantes? Vimos nos Sociodramas Construtivistas como, especialmente as mulheres, temem seus odores vaginais naturais especialmente na relação sexual oral chamada cunilingus e como solicitam maridos banhados, barbeados e perfumados para uma relação sexual de melhor qualidade.
            Outra utilização da cultura industrial ligada ao erotismo e à sexualidade humana, é a dos perfumes e da cosmetologia, muitas vezes determinando às pessoas os cheiros que devem provocar o desejo sexual. Vimos nos nossos estudos sobre hormônios, como os feromônios, produzidos a partir do DHEA ou Desidroepiandrosterona, parecem tão exclusivos quanto nossas impressões digitais. Acreditar no poder de sedução de certos perfumes ou aromas é massificar esta particularidade.
            Quando se fala em atração e paixão sexuais, ligamo-as culturalmente mais aos homens e as mulheres mais ao romance e ao namoro. Todavia, vimos que os feromônios têm igualmente influências nos cérebros de homens e de mulheres, através do órgão vulmerianonasal, que influencia suas sensualidades e são responsáveis pela produção de bem estar e intimidade inexplicáveis na presença de pessoas pouco familiares, por quem se sentem apaixonados “quimicamente”, como se diz cotidianamente. Hormonalmente falando, homens e mulheres estão igualmente susceptíveis a estas paixões químicas. Isto nos auxilia na desconstrução de que os homens são mais ligados, naturalmente, a sexo do que as mulheres.
            Nos resultados de nossas pesquisas, ambos os cônjuges em sua maioria, associavam a infidelidade de esposas a um grande amor que surgiria em suas vidas. Já os maridos seriam totalmente capazes de distinguir amor de sexo.
            Ainda hoje encontramos proibições religiosas que mantém as mulheres ignorantes sobre seus próprios corpos e orgasmos. A herança cultural do amor legítimo ser o da cama do casal, sem uso de barreiras contraceptivas e na manutenção da reprodução humana; mantém casais com mulheres anorgásmicas, auto depreciadas sexualmente e que se responsabilizam pela infidelidade sexual dos maridos. Aqui vimos como a história e a prática da vida cotidiana dessas mulheres esposas e mães se articulam e constituem um fator a mais nas suas vulnerabilidades ao HIV e à AIDS.
            As mulheres em geral solicitam mais carinho e carícias mais prolongadas nas preliminares da relação sexual. Vimos que o toque, o tato em geral é um agente fundamental para envolvimentos humanos, por sua potencialidade em estimular o hormônio chamado ocitocina predisponente aos contatos íntimos e afetivos. Desta forma, parece-nos que estes pedidos não apenas são frutos de uma educação romântica e de recato para o gênero feminino, mas estimulados também pelos hormônios destas mulheres. Nos resultados de nossas pesquisas, a  maioria das mulheres dos vários níveis sociais e instrucionais pedem aos maridos que aperfeiçoem as preliminares de  suas relações sexuais.
            Os homens desta pesquisa solicitaram das mulheres cuidados com a aparência física delas. Quando estudamos os hormônios, a feniletilamina ou PEA foi descrito como aquele que estimula o desejo pela visão, o que toma decisões à distância e que, junto aos feromônios, pelo odor secreto e o toque, através da ocitocina complementam-se na construção do cenário do amor fulminante, da paixão. Vemos aqui, mais uma vez, a complexidade do desejo sexual, onde a cultura e os hormônios influenciam-se nas reações sexuais humanas. Níveis elevados do hormônio chamado Feniletilamina ou PEA, aparecem com mais freqüência em mulheres do que em homens, especialmente durante ou perto da fase em que ela está ovulando, o que a predispõe mais uma vez  para o romance e a paixão.
            As mulheres, na maioria de suas fases do ciclo sexual, têm menores quantidades de testosterona que os homens. Vimos como esse hormônio estimula o desejo e o impulso sexual. Se pudermos relacionar a testosterona à infidelidade sexual conjugal, mais freqüente nos maridos; através dos dados desta pesquisa podemos supor que, dependendo da idade, estes maridos têm este outro elemento, o hormonal, além do determinado pela cultura, para ter mais relações sexuais extraconjugais do que suas mulheres. Esta é uma visão evolucionista da infidelidade sexual conjugal, como vimos.
            Algumas mulheres desta pesquisa falam da dificuldade em comunicar aos maridos alguns períodos em que não têm desejo sexual. Entre os vários fatores que influenciam o desejo sexual, estão os níveis de hormônio, principalmente a testosterona e a progesterona, como estudamos no capitulo sobre hormônios, neste trabalho. É preciso, então, desmitificar que o desejo sexual reduzido no conjugal, seja apenas sinal de rejeição sexual, mas um complexo de sinais e fatores inter-relacionados: fatores afetivos, culturais e hormonais, entre outros.
            Outra influência hormonal presente nas diferenças de gênero, está ligada às fantasias sexuais, também mais presentes nos homens desta pesquisa, do que nas mulheres. Vimos como a testosterona influencia isto, posto que, maiores taxas de testosterona, fazem evoluir maiores fantasias ligadas ao sexo mais genital, erótico e pornográfico.
            Outro aspecto observado nos resultados de nossas pesquisas referem-se à diminuição gradual que a maioria dos casais estudados apresenta em relação a não buscar novidades nas vidas sexuais conjugais. É claro que os investimentos em outros projetos de vida comum, como a criação de filhos, busca da construção do patrimônio familiar e as próprias mudanças ao longo do ciclo da vida, são elementos importantes nessa acomodação da vida sexual conjugal. Todavia, também consideramos o que aprendemos em nossos estudos sobre a dança dos hormônios na vida sexual dos casais, especificamente quando os níveis feniletilamina, um dos fatores responsáveis pela busca ardorosa entre os casais, reduzem-se gradualmente pelo fato das terminações nervosas do cérebro ficarem menos reativas, com o decorrer do tempo de convivência. Assim, consideramos importante que os programas de educação sexual e preventiva do HIV, para casais, discutam as possibilidades de erotização e de motivações para que estes possam ter maiores satisfações em suas relações e fiquem menos vulneráveis a ter relações sexuais extraconjugais, sem proteção de sexo seguro ou de preservativos.
            Alguns homens durante os Sociodramas Construtivistas afirmaram ter maiores apetites sexuais durante a manhã. Além de fatores como o descanso, vimos que o nível do hormônio que mais impulsiona para o sexo, a testosterona, atinge seus nível máximo, em muitos homens, no período matutino. Este é outro esclarecimento que falta às esposas, a nosso ver, na compreensão de suas dinâmicas sexuais e conjugais.
            A complexidade deve ser sempre considerada, quando falamos de sexualidade conjugal. Há grandes influências inter-hormonais e inter-genéricas na cultura e no ambiente e vice versa, conforme observamos, ao longo deste nosso trabalho. Manter os casais ignorantes a respeito desta complexidade, pode diminuir suas compreensões e continências afetivas, frente ao desenvolvimento de suas vidas sexuais, ao longo do casamento. Por exemplo, as alterações hormonais e dinâmicas das mulheres, onde níveis de estrogênio, de testosterona, de progesterona e outras tantas substâncias vêem e vão durante os cliclos delas, precisariam ser melhores esclarecidas, para uma reciprocidade maior de aceitação de humores variados entre casais.
            Outro fator curioso referente ao desejo sexual feminino é o fato de muitas mulheres terem o pico sexual mais intenso durante o período pré menstrual ou menstrual, ocasião em que a testosterona apresenta nível mais alto. Este fato embora pareça ilógico ou contraditório sob o ponto de vista reprodutivo, pode explicar a freqüência de relações sexuais durante a menstruação da mulher. Supomos, também, que esta pode ser uma fase onde algumas mulheres pensam estar mais “imunes” à gravidez, o que pode aumentar sua disponibilidade para o sexo erótico, do prazer. Sabemos que manter relações sexuais no período da menstruação, é uma atitude de risco, caso não haja a proteção do preservativo. Em nossas pesquisas, a maioria dos casais têm relações sexuais nessa ocasião. Isto deverá ser um ponto enfocado no trabalho de educação sexual preventiva do HIV com casais.
            Freqüentemente as mulheres ignoram ou negam seus desejos sexuais e têm dificuldades em direcionar suas vidas sexuais assumindo a responsabilidade por suas necessidades e motivações. Muitas mulheres buscam garantias de que suas decisões serão aprovadas pelos homens e de que suas escolhas estarão certas, antes mesmo de compreenderem as implicações destas escolhas e decisões com relação a si mesmas. O determinismo cultural para que a mulher seja desejada e desejável pelo marido, diminui o autocontrole, a autoconfiança e a autodeterminação das mulheres, da adolescência à velhice, em seus papéis de filha, de mãe, de amante e de esposa. Em vez de aprender a como realizar os seus desejos, aprendem a como realizar os desejos dos maridos.  Esta dinâmica está enraizada na ampla repressão social e psicológica exercida contra o poder feminino. Vimos nos resultados de nossas pesquisas como muitas esposas ainda temem não satisfazer sexualmente seus maridos e isto é mais importante do que alcançarem seus orgasmos. Vimos, também, como elas se dispõem a fazer neles o sexo oral ou a felação e pouco solicitam ou aceitam, de seus maridos, a cunilígua. Elas privilegiam a afiliação ao marido e temem tornarem-se divorciadas ou separadas mesmo sabendo que correm o risco de serem infectadas pelo HIV por maridos sabidamente infiéis. Essa implícita e nem sempre consciente subjugação da sexualidade da mulher à do marido, deve ser enfocada, a nosso ver, em trabalhos de educação sexual e de prevenção à AIDS, com casais. A dificuldade em negociar sexo seguro, é decorrente disto, a nosso ver.
            Uma função ou um papel importante que surgiu neste trabalho e nestes casais é o de multiplicadores da educação preventiva. Isto pode ser observado nas narrativas desses casais nos Sociodramas Construtivistas, no vídeo e nos Manuais de Educação Sexual para Casais. Nestes últimos, as propostas para a prevenção do HIV e da AIDS mostram claramente as desconstruções que realizaram sobre idéias e sentimentos antigos de suas identidades como homens e mulheres. A comunicação clara dos desejos e dos temores em suas vidas sexuais e as propostas para evitar esta enfermidade são baseadas, nos três grupos de casais, na abertura para a visão da infidelidade sexual conjugal, para a bissexualidade dos maridos, para o orgasmo e para o uso do preservativo. Os casais da empresas A, B e C igualmente propõe que os cônjuges enfiéis usem o preservativo em suas relações sexuais extraconjugais. Também admitem que o uso do preservativo como sexo seguro dentro do casamento não é um comportamento  que lhes pareça viável.
            Todos articulam, de forma contextualizada, o uso do preservativo com formas erotizadas de colocá-lo no sexo oral, anal e vaginal, quando ele houver e for aceito.
            As mensagens finais destes casais, colocadas no final dos referidos Manuais estão ligadas a: prazer, quebra da rotina sexual conjugal e negociação de sexo seguro – nos casais da empresa C. Ou ainda: conscientização de risco ao HIV, enfrentamento de diálogos conjugais sobre infidelidade e prazer sexual – nos casais da empresa B. E, finalmente, mensagens de: consciência sobre sexo seguro, prazer e AIDS e relações de maior transparência sobre a infidelidade conjugal, nos casais da empresa A.
            Parece-nos que os casais de classe econômica média baixa foram os mais beneficiados quanto à discussão dos prazeres sexuais conjugais não serem necessariamente pecaminosos. Estes casais também nos pareceram mais abertos quanto a admitir a infidelidade sexual. Os casais de classe média pareceram-nos mais ligados às possibilidades da comunicação sexual, comprometida com a saúde sexual e os que mais rapidamente estiveram prontos à discussão de mitos e de tabus sobre os temas em questão. E, os de classe média alta foram os que mais deram respostas socialmente corretas no início do trabalho. Mas, com o decorrer dos Sociodramas Construtivistas passaram a admitir mais claramente as suas vulnerabilidades quanto ao HIV e a AIDS.
            As concepções atuais daquilo que é tido como certo e como errado na sexualidade humana, nos relacionamentos afetivos e amorosos permitidos e tidos como normais da noção de masculino e feminino são construções históricas, como pudemos ver em nossos estudos sobre gêneros e poderiam ter sido concebidas diferentemente. Nossas verdades atuais foram sendo definidas por pensadores, ao longo da trajetória do Ocidente, que influenciaram decisivamente as instituições públicas como: o estado, a escola e a Igreja na sua missão de moldar as condutas humanas frente à sexualidade. Para que haja uma real mudança de comportamento é necessário que não só o educador como também os educandos percebam como a informação, apenas, não basta. É preciso um profundo exercício intelectual de assimilação e contextualização histórica e política, visando uma real mudança de postura frente às práticas sexuais e frente à vida. Nos Sociodramas Construtivistas que realizamos, vimos como diversos tabus referentes ao orgasmo, às posições sexuais, à infidelidade sexual e ao prazer erótico, entre outros, dificultam ou mesmo impedem os casais de terem uma vida sexual mais realizada.
           
Os mitos e os tabus sexuais existentes são o reflexo de uma herança de permanente vigia da sociedade em relação à sexualidade individual e coletiva, tanto no espaço privado do lar, da casa, da família, do trabalho, da rua, da mídia e da escola. Herdamos e construímos, a cada dia, um meio sócio-cultural que vigia a sexualidade alheia na tentativa de coagir as ações individuais e enquadrá-las nos modelos hegemônicos e permitidos. É preciso que educadores e terapeutas sexuais, façam trabalhos de educação preventiva do HIV que privilegiem, mais do que as informações científicas sobre a AIDS, espaços para a conscientização, discussão e posterior resignificação de todos os valores e crenças que embasam suas identidades sexuais. Podemos observar o processo desta desconstrução de crenças e valores identitários, que os grupos de casais foram co-construindo na decorrer dos Sociodramas Construtivistas.
            Vimos quantos sentimentos e impactos produziu o conhecimento, na história, de que um macho e uma fêmea, em contato íntimo, facilitavam a origem de um novo ser. De certa forma, especulações sobre a origem do ser humano persistem e não se elucidaram todas as questões sobre reprodução e evolução das espécies. Embora digamos que estamos em épocas modernas, temos pouca consciência sobre o direito que ampara a diferença entre sexualidade e a reprodução como ilustrou a Conferência do Cairo (1994), onde alianças que pareciam impossíveis entre igrejas fundamentalistas e hierarquias católicas desviaram a atenção dos governos e a opinião internacional sobre a importante temática do desenvolvimento dos povos do século vinte, para centrá-los, por alguns dias, nos prejuízos da obrigatoriedade da maternidade.
            Quanto ao dever e repressão sexual  é preciso vigilância para que o prazer sexual não se converta em mandatos, pois entender o gozo como dever anula suas possibilidades. No que se refere à educação sexual e liberdade, o prazer sexual não depende  de inversões econômicas, de tecnologias especiais  ou de especialistas científicos mas sim, de cada pessoa em particular. Os Sociodramas Construtivistas discutiram os entraves culturais e religiosos na satisfação plena das sexualidades de homens e mulheres por nós investigados. Estes mesmos entraves aparecem nos comportamentos que os tornam vulneráveis ao HIV, como a não discussão sobre o sexo anal e o sexo oral de forma que, quando estes são vivenciados, não encontram suportes de educação que lhes forneça prazer emocional ligado ao sexual, sem culpas e com segurança contra a enfermidade que estamos focalizando, entre outros.
            O debate informação versus educação sexual desde o início dos anos sessenta polarizou o problema da neutralidade das ações pedagógicas relativas à sexualidade. Tradicionalmente, a defesa da informação coincide com posições de tipo conservador que visam limitar as ações pedagógicas à simples comunicação da biologia da reprodução, acompanhada ou não de considerações higienistas e morais. Essas ações pretendiam ser ideologicamente neutras. A esta perspectiva opõe-se o modelo de educação integral, em que os domínios de informação estão indissociáveis do domínio das competências afetivas e sociais.
            Há fatores importantes na atualidade, como a influência decrescente da família e da religião associada à emergência de novas práticas e a valores sexuais nas relações entre homens e mulheres. Há também as preocupações sociais  como a precocidade das relações sexuais e suas respectivas conseqüências. Vimos nos Sociodramas Construtivistas como homens e mulheres articulam a prevenção do HIV para seus filhos ao medo de que eles engravidem precoce e indesejadamente. Todavia, poucos conversam com seus filhos sobre o prazer da sexualidade. Falam mais dos riscos dela. Estes Sociodramas Construtivistas mostram-nos como o desenvolvimento de relações de educação sexual mais consistente e ligado à realidade do prazer, entre pais e filhos, pode ser uma das bases de constituição da prevenção de HIV e de AIDS desses jovens. Os casais especialmente da classe média, valorizam a coragem que os pais devem desenvolver para encarar a educação sexual de sua prole. Os da classe média baixa, reforçam as oportunidades de educação que seus filhos têm, superiores às que eles próprios tiveram e os casais da classe média alta pedem que seus filhos sejam, na juventude, menos onipotentes para que possam ouvi-los, enquanto os que detêm o ensino da prevenção.
            As nossas pesquisas mostram que é preciso quebrar o mito de que não devemos falar sobre sexo, sobre órgãos genitais e sobre AIDS. Mães e pais precisam conversar com seus filhos além de conversarem entre si. Os pais dos casais pesquisados não têm esse padrão de comportamento, mas há um movimento neles para buscar essa comunicação. Nas dedicatórias dos Manuais de Educação Sexual para Casais estão caracterizadas as preocupações destes casais enquanto pais.
            Vimos como o erotismo é uma criação da inteligência, um requinte da cultura e uma espécie de objeto de luxo nas nossas sociedades. Todavia, os resultados de nossas pesquisas mostram como os casais atuais ainda se comunicam pouco quanto à busca pura e simples do prazer e do erotismo em suas relações sexuais, principalmente as mulheres casadas, que fingem o orgasmo para seus maridos quando não conseguem comunicar a eles que não o conseguem o orgasmo. Isto mantém alguns maridos desconhecedores do orgasmo feminino.
            Se a AIDS foi vista como sendo algo que somente gays contraiam e se homens casados estão fazendo sexo com outros homens sem considerarem este ato como sendo homossexual e sim como apenas uma coisa que fazem ocasionalmente, estes maridos deixam suas mulheres em situação de alto risco a esta doença. Mulheres que foram educadas para pensar em sua sexualidade erótica como sendo pecaminosa a respeito da qual não podiam falar e têm que fazer sexo quando recebem ordens dos maridos, estão totalmente vulneráveis à infecção do HIV, desta forma.
            Surpreende-nos o fato de uma dona-de-casa na América Latina, correr um risco maior de contrair HIV do que uma prostituta, por causa da bissexualidade oculta de seus maridos. Todavia, este fenômeno foi confirmado nos resultados de nossa pesquisa na medida em que a maioria das mulheres nega ou não percebe quando seus maridos têm comportamentos ou prática bissexuais.
            Quanto às relações entre o eu e os outros, vimos em nossas pesquisas, antes dos Sociodramas Construtivistas, que quando as esposas amam seus maridos acreditam que estão protegidas. É pela força destas crenças que a batalha entre os comportamentos seguros para o HIV e o amor, é vencida por este último.
            A proposta do uso do preservativo por parte dos cônjuges é vista com desconfiança, já que amar é confiar.
            Antes dos Sociodramas Construtivistas e nos próprios, vimos definições românticas de amor que tornam pessoas casadas, especialmente as mulheres, vulneráveis ao HIV e à AIDS.
            Os resultados de nossas pesquisas mostram que grande parte das mulheres continua a ter dificuldade em pedir ao seu parceiro sexual para se proteger nas relações sexuais. Essa uma questão fundamental na prevenção do HIV e da AIDS.
            A discussão pública em torno da AIDS mostra que o nosso sistema de saúde precisa estar preparado para a prevenção  e educação. É preciso promover a mudança de atitudes e comportamentos dos profissionais de saúde e educadores, seja nas escolas, nas universidades e nas instituições de saúde em geral.
            Somos confrontados pela complexidade do ser e pela complexidade do mundo. Juntar o que concorda e o que discorda, o que está em harmonia e o que está em desacordo, é a possibilidade pós-moderna da metodologia aqui proposta. O Sociodramas Construtivistas favorecem a construção do saber sobre as próprias sexualidades bem como dos saberes sobre AIDS dos casais pesquisados, onde é possível a coexistência de pontos de vista e de crenças discordantes.
            O papel de um pesquisador na sociedade é o de estimular seus pesquisados a refletirem sobre o saber. Ele deve tomar consciência de sua responsabilidade na sociedade, pois ele faz parte dela.
            Não há nada menos neutro do que a ciência. O mito da neutralidade da ciência é uma maneira de inocentar a consciência, disse Morin (2000). Vimos nestes Sociodramas Construtivistas como a figura da pesquisadora influenciou e foi influenciada pelos casais pesquisados e como isto constituiu a co-construção da prevenção do HIV e da AIDS para eles.
            Acreditamos que conhecer não consiste em construir sistemas sobre as bases certas. É dialogar com a incerteza. Esta foi uma tônica constante nos Sociodramas Construtivistas: legitimar todos os saberes apresentados pelos casais e torná-los passíveis de discussão e de não serem conclusivos.
            É preciso, ainda falar do imaginário pelo qual tentamos resolver os problemas e traduzir nossos desejos. Ampliar e enriquecer a noção de homem: o biológico, o racional e o imaginário é fundamental. Não se trata somente da consciência dos sonhos, das utopias e dos projetos. Até pouco tempo atrás, víamos os mitos ou as manifestações do imaginário como fantasmas, ou como válvulas pelas quais as fumaças se desvaneciam. Hoje vemos como atingir o imaginário da AIDS de nossos casais pesquisados, foi fundamental para a co-construção de uma pedagogia de sexualidade e de prevenção de HIV, onde eles foram os principais autores e atores. O único conhecimento verdadeiro é aquele que adquirimos por nós mesmos. Entendemos que os Sociodramas Construtivistas possibilitaram aos casais pesquisados a combinação entre o auto e hetero didatismo na co-construção de seus saberes.
             Sugerimos uma reflexão crítica sobre os nossos sistemas de educação sexual e preventiva, pois a ascensão ao conhecimento não precisa ser  detida em certas idades como a infância e a adolescência. Educar os adultos sobre sexualidade conjugal e prevenção de HIV e de AIDS é proporcionar terrenos férteis de pedagogia nas famílias e em suas interconexões com  a escola, com a universidade e com a ciência. O saber acadêmico faz sentido quando está a serviço do saber da comunidade e vice versa, a nosso ver.
             A epidemia de AIDS não parece, até o momento, ter influenciado globalmente os principais parâmetros do comportamento sexual da população. Nossos estudos puseram em evidência a variabilidade do repertório sexual ao longo da vida de uma pessoa e como isso aparece em função do clima social e sexual no qual ela foi socializada.  Gênero é um dos fatores estruturadores da sexualidade de homens e mulheres, produto da diferenciação de normas sociais em matéria de sexualidade adquiridas durante o processo de aprendizagem social. Abre-se, assim, espaço para a emergência e o reforço da pluralidade de visões do mundo social. Discutir gênero, infidelidade sexual e erotismo tem como importância a articulação dessa pluralidade, na vida sexual dos casais.

            Os Sociodramas Construtivistas da Sexualidade Conjugal na Prevenção do HIV e da AIDS no Casamento mostrou-se eficaz como metodologia de educação sexual e de prevenção desta enfermidade epidêmica.
            As várias respostas que mantêm os casais com atitudes vulneráveis para serem infectados pelo HIV antes e depois dos Sociodramas Construtivistas, sofreram mudanças muito importantes, como podemos observar nos resultados quantitativos e qualitativos desta dissertação. E isto ocorre de tal forma que pudemos considerar os casais pesquisados como adequadamente sensibilizados e conscientizados para melhorar as qualidades e as saúdes sexuais de suas vidas.
           
Os resultados qualitativos mostram como os casais adquiriram novas visões de suas vidas sexual, erótica e afetiva, onde enfrentaram o desafio de revisar, redefinir e amplificar suas atitudes de co-responsabilidade na luta contra o HIV e a AIDS em suas próprias vidas, suas próprias conjugalidades, seus papéis como pais, amantes, cônjuges, amigos, colegas de trabalho e, enfim, de cidadãos.  

Ana Maria Fonseca Zampieri 
Psicóloga (USP). Mestre e Doutora em Psicología Clínica (PUC/SP). Pós Graduação em Terapia Sexual (SBRASH). Psicodramatista. Mestre, Supervisora e Terapeuta Didata em Psicodrama pela FEBRAP. Pós Graduação em Terapia de Casais e Famílias (PUC/SP). Diretora de Ensino e Ciência da F&Z ASSESSORIA E DESENVOLVIMENTO EM EDUCAÇÃO E SAÚDE S/C LTDA. Coordenadora do Curso de Pós graduação no CAEP, na UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS; de CEPB de Brasília e IBAP de Bauru. Co-autora dos livros: 1. Terapia Familiar e Justiça Social. 2. Psicodrama em Empresas. 3. Prevenção HIV/AIDS. Experiências do Projeto AIDSCAP no Brasil. Autora dos livros: 1. Sociodrama Construtivista da AIDS. 2. Erotismo, Sexualidade, Casamento e Infidelidade. Sociodrama Construtivista da Sexualidade Conjugal na Prevenção do HIV e da SIDA no Casamento.
  
Rosa Maria Stefanini Macedo
Professora e doutora em Psicologia Clínica. Coordenadora do Núcleo de Família e Comunidade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 
Autora de livros e artigos científicos publicados no Brasil e em vários paises.


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