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Os traumas nossos de cada dia! 
co-responsabilidades e desafios!

Ana Maria Fonseca Zampieri, Ph.D.*
Ana Paula Fonseca Zampieri, Psicóloga**
Paulo Zampieri, Dr.***

F&Z Assessoria e Desenvolvimento em Educação e Saúde Ltda
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO)

RESUMO: Os autores apresentam o conceito de trauma e do Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT (DSM-IV) numa visão sistêmica e suas experiências em tratá-lo com EMDR, inclusive em Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP). Descrevem o que chamam de entornos traumatogênicos dos cotidianos das vidas das famílias.
Palavras-chave: trauma, Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP), prevenção.

ABSTRACT: The authors present the concept of trauma and of Post-Traumatic Stress Disorder - PTSD (DSM-IV) in a systemic view and their experiences in healing with EMDR, including Program of Psychological Humanitarian Help (PPHH). They describe what they call surroundings traumatogenic of everyday  lives of families and people in general.
Key-words: trauma, Post-Traumatic Stress Disorder, Program of Psychological Humanitarian Help (PPHH), prevention.

           Na dimensão da causalidade histórica da ciência, sabemos da importância da relação dialética de mútua influência entre a história, os fatores sociais, políticos, econômicos e ideológicos na clínica psicológica e psiquiátrica.
           Da raiz indoeuropéia ter (usar quebrando) e do grego titroskein (ferir, deteriorar) e troma (ferida, dano, desastre) a palavra traumatikos, depois traumaticus nos oferece o atual termo: traumático. O trauma é uma resposta do sistema nervoso e não tem origem no evento, fala-nos Peter Levine (2010). Sintomas semelhantes podem se desenvolver a partir de uma ampla variedade de acontecimentos. Freud (1895) já nos dizia que o trauma é uma barreira protetora contra a superestimulação, acarretando sentimentos avassaladores de impotência.


*Pós Doutora. Doutora. Mestre em Psicologia Clínica. Especialista em EMDR.
**Especialista em EMDR infantil, Terapeu
ta Familiar.
***Médico psiquiatra. Especialista em EMDR e Terapeuta Fam
iliar.


           Podemos dizer que o trauma psicológico é um estado severo de medo, que vivenciamos quando somos confrontados com um evento repentino e inesperado, potencialmente ameaçador à vida, sobre o qual não temos nenhum controle (Flannery, 1994).
           Como um acontecimento se transforma em trauma? Apesar de a ansiedade estar presente em todos os seres humanos, alguns indivíduos a manifestam com intensidade e duração exacerbadas, impedindo a continuidade equilibrada da vida. É o caso de boa parte das pessoas que sofreram traumas: um acontecimento se transforma em trauma quando o seu sistema é sobrecarregado cronicamente.
           Nos Estados Unidos, a experiência da guerra do Vietnã levou os autores do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM – IV, 1994) ao termo Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). Em 1994, a Associação Psiquiátrica Americana apresenta o DSM-IV que descreve que no trauma a pessoa foi exposta a um evento traumático no qual se observavam duas características: vivenciou, testemunhou ou foi confrontada por um evento ou eventos que envolviam morte ou ameaça de morte ou de lesões graves, ou ameaça à integridade física própria ou de outros; e, ainda, uma resposta que acarretou medo interno, impotência ou horror.
           A probabilidade de o Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT) ser desenvolvido está diretamente relacionada a uma série de fatores, entre eles: características específicas do acontecimento, grau de exposição: tempo ou vezes em que a situação ocorreu; fatores socioeconômicos, qualidade do apoio social recebido, fatores biológicos como a diminuição do volume hipocampal; traços de personalidade e percepção do indivíduo perante o evento. Enfatizamos que a maneira como as pessoas processam a situação estressora, após sua ocorrência, é determinante para que o trauma seja configurado ou não.
           O trauma psicológico pode ser especialmente grave ou duradouro quando o agente causador é humano: ataque social ou físico; assalto a mão armada; roubo; seqüestro; violência moral, psicológica, física ou sexual; atentado terrorista, confinamentos como prisioneiro de guerra ou em campo de concentração; desastres provocados pelo homem, acidentes automobilísticos graves; tortura política, entre outros.
           Como o trauma se apresenta? As lembranças do trauma geralmente estão fragmentadas em imagens, sons, odores, sensações físicas (náuseas, tonturas e outras) ou emoções (aversão, nojo, medo, pavor, raiva, tristeza) não integradas a outras memórias autobiográficas. Estímulos relacionados ao evento traumático, específicos e/ou genéricos, podem reativar as memórias que retornam muito mais fortes que uma simples recordação, com nitidez visual e forte expressão emocional, provocando a revivência do evento que foi traumagênico.
           Traumas podem afetar o funcionamento cognitivo, a saúde física e as relações interpessoais. Em termos biológicos, Peter Levine (2010) diz que o trauma se organiza em torno da resposta de imobilidade tônica, potencializada pelo medo, presente no animais, dos insetos aos humanos. A chave para a resolução do trauma está no desacoplamento do medo da imobilidade paralisante, permitindo que energias intensas ligadas ao estado de imobilidade possam ser acessadas, liberadas e transformadas.
           Desta forma, podemos entender que o trauma acontece quando o organismo é forçado além de sua capacidade adaptativa para regular os estados de ativação de luta ou fuga. O sistema nervoso traumatizado se desorganiza, falha e não consegue se recompor, imobilizado pela impossibilidade de resposta. Isto se manifesta em uma fixação global, em uma perda importante na capacidade rítmica de auto-regulação, que oriente e permita o estar no presente e fluir da vida.
           Quais são os mecanismos fisiológicos e psicológicos usados para detectar, responder e recuperar eventos altamente estressantes? A psicotraumatologia surgiu de um ramo da medicina: a cirurgia do trauma, com Donovan em 1991. Atualmente, integra estudos do estresse traumático, a vitimologia, os estudos dos traumas por violações e agressões sexuais e os estudos dos sobreviventes do holocausto, entre outros. Os primórdios deste campo são encontrados desde 1965, quando médicos como Veith (1965) iniciaram suas publicações sobre a histeria. A partir de Ellenberger, em 1970, publicaram-se os principais sintomas como: flashbacks, dissociações e sobressaltos, antes considerados obras dos deuses, do demônio e dos espíritos, nessa ocasião, vistos, sinais de histeria.
           No Hospital La Salpetrière, de Paris, famoso estudioso, Jean-Martin Charcot (1862), foi o primeiro a retirar da doença psicológica e mental as explicações divinas e espirituais.
           Nos Programas de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP - que fazemos desde 2008, com vítimas de catástrofes naturais, ainda encontramos pessoas que explicam o sintoma, pós-tragédias, especialmente as dissociações, como coisa do demônio ou espirituais. Como exemplo temos a narrativa de Lúcia, nome fictício de uma desabrigada de Rosário, no Maranhão, com 62 anos, que disse:

“... foi tão braba a enchente que os espíritos saíram da terra... os maus ficam lá no fundo... na lama tudo ficou misturado... bicho, gente, espíritos... e essa daí... a vizinha biruta... os demônios ficaram no corpo dela... porque ela quase se afogou... bebeu água de espírito mau... por isso ela falou que não sabe onde está... neste abrigo a cabeça dela tá que é só espírito ruim fazendo confusão... eles fazem ela gritar de noite, e fica assustada... coitada! ...”

Importante estudioso de traumas, o psiquiatra argentino Dr. Moty Benyakar (2005) cita Figley, que em 2001 publicou Origins of Traumatology and Prospects for the Future, que oferece estratégias para ajudar as pessoas traumatizadas a mudarem e se libertarem de seus sintomas, na busca de soluções resilientes.
           Queremos aqui refletir sobre o cuidado que nós, os profissionais de saúde mental, devemos ter em não nos limitarmos apenas aos aspectos observáveis dos eventos catastróficos ou traumatogênicos, bem como aos sintomas, especialmente do chamado Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, DSM – IV), mas também às forças e ao crescimento de pessoas que vivem situações potencialmente traumáticas. Precisamos observar como circunstâncias internas e externas das pessoas e de suas redes sociais, podem constituir as forças que chamamos de resiliência, pois, após a superação trazem “empoderamento” às vítimas de catástrofes, por exemplo.
           Vejamos esta narrativa de Suely, com 39 anos,  nome fictício de uma dos desabrigados, em 2008, em Blumenau, Santa Catarina:

“... hoje a idéia de voltar a ter uma casa nossa, onde a gente possa ter nosso jeito de viver, de ter as nossas idéias de criar filhos, de ter Deus no coração... eu valorizo tudo de outras formas, entende? ... eu era muito crítica, preguiçosa e não sabia dar valor ao que tinha... meus filhos, os três que tenho... perdi um... a água levou... ele vai me dar forças para luta por nossa família.”

Citamos o psiquiatra argentino, Moty Benyakar (2006) que diz que a noção de trauma é inerente à complexidade da existência humana e que a área da traumatologia estuda as conseqüências psicossociais mediatas e imediatas dos eventos disruptivos, que podem ocorrer.
           Todos nós, seres humanos e animais em geral, temos uma fisiologia de resposta ao perigo. O nosso sistema nervoso autônomo regula funções básicas do corpo, incluindo o sistema visceral, ou nossos órgãos internos e tem duas ramificações: o Sistema Nervoso Simpático e o Sistema Nervoso Parassimpático.
           O Sistema Nervoso Simpático (SNS) prepara o corpo para a ação, regula a ativação, aumenta a atividade nos momentos de estresse, tanto negativos quanto positivos. Ele é ativado quando estamos alertas, excitados ou envolvidos em atividades físicas; e nos prepara para enfrentar emergências e ameaças através de aumento dos batimentos cardíacos, da respiração e da pressão sanguínea; desvia o sangue do sistema digestivo para os músculos, o que permite uma movimentação mais rápida; a contração dos vasos sanguíneos, drenando o sangue da superfície da pele que fica pálida e fria, preparando-a para uma lesão potencial; a dilatação das pupilas, a retração das pálpebras e focalização dos olhos. Em síntese, o Sistema Nervoso Simpático (SNS) prepara para o perigo, luta ou fuga. Já o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) é o que ajuda a relaxar, reorganizar e regenerar, após a ameaça ou perigo; através de soltura da tensão muscular, diminuição dos batimentos cardíacos e da pressão sanguínea; aquece a pele e devolve-lhe a cor, auxilia na digestão; promove o retorno do sangue para os vasos periféricos; permite que o sistema imunológico funcione novamente e promove a secreção de fluidos corporais.
           Quando acontece a ativação extrema do Sistema Nervoso Simpático (SNS), o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) também atua como um mecanismo de freio emergencial, desacelerando todos os processos corporais, o que pode resultar em uma resposta do congelamento. Desta forma, o trauma pode acontecer quando o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) fica parado, fixado nessa resposta de congelamento, que, assim, se sobrepõe à hiperativação do Sistema Nervoso Simpático (SNS), ao invés de descarregar sua energia; o que nos ajudaria a relaxar, descontrair e assim, descarregar a ativação do Sistema Nervoso Simpático (SNS).
           De forma bem simplificada, podemos dizer que o Sistema Nervoso Simpático (SNS) e o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) têm funções que se inter-relacionam. Enquanto o SNS dilata a pupila, inibe o fluxo da saliva, acelera o batimento cardíaco, dilata os brônquios, inibe os movimentos peristálticos e a secreção; converge o glicogênio em glicose; secreta adrenalina e noradrenalina e inibe a contração da bexiga; o SNP estimula o fluxo da saliva, diminui o batimento cardíaco, contrai os brônquios estimula os movimentos peristálticos e a secreção, estimula a eliminação da bílis e contrai a bexiga.
           Quando existem perigos e ameaças, o sistema nervoso saudável recupera contínuos ciclos de carga/descarga, dentro de limites aceitáveis.
           Os sintomas do estresse traumático são uma forma, não saudável, de segurar altos níveis de ativação ou de excitação em um Sistema Nervoso hiperativado. Eles podem incluir: hiperativação do SNS, hiper-excitação e constrição, com sintomas físicos de aumento dos batimentos cardíacos, dificuldade de respiração, que pode ser rápida, superficial e ofegante; suores frios, arrepios, tensão muscular e resposta de sobressalto. Ainda, com sintomas emocionais de ataques de ansiedade e pânico, mania, ataques de raiva, hipervigilância, turbilhão de pensamentos e preocupações excessivas. Podem incluir, ainda, hiperativação do SNP, com desconexão e dissociação, apresentando sintomas físicos de baixa de energia, exaustão, entorpecimento, tônus muscular baixo, má digestão, índices baixos de batimentos cardíacos e/ou de pressão sanguínea e funcionamento inadequado do sistema imunológico. Há sintomas emocionais de: depressão, dissociação, apatia, desconexão nos relacionamentos e reação débil aos estímulos.
           Quando há hiperativação simultânea dos dois ramos do sistema nervoso autônomo, ou seja, do SNP e do SNS, há sintomas de ansiedade com depressão, rigidez muscular em uma parte do corpo acompanhado de hipotonia em outra parte e diarréia alternada com constipação.
           Peter Levine (2010), a esse respeito, diz que a estrutura do trauma, incluindo a hiperativação, a dissociação e o congelamento, baseia-se na evolução dos comportamentos de sobrevivência do predador/presa; e que os sintomas do trauma são o resultado de uma resposta biológica incompleta à ameaça, que fica congelada no tempo. O trauma, segundo o autor, pode ser renegociado, quando a resposta de congelamento recebe apoio; podendo “degelar” e finalizar o ato interrompido.
           Os traumas podem ser grandes, únicos, pequenos, repetitivos, discretos e sutis.
           As famílias são o cenário de eventos traumáticos repetitivos, tais como golpes físicos, abusos emocionais, sexuais ou incestos. A violência muda as relações familiares, torna as relações distorcidas e as transforma em relações perturbadas. Podem se distanciar uns dos outros; uma das pessoas pode acomodar sua própria forma de funcionamento para preservar a harmonia do relacionamento; podem se envolver em um conflito; e o casal pode triangular entre outros. A família é fundamental para questões como: vulnerabilidade, recuperação e resistência aos eventos traumáticos e suas conseqüências. Devemos manter em mente que a família é parte de um todo que sofre o trauma quando um ou mais dos seus membros é oprimido por acontecimentos externos.
           Bowlby (1990) fala de experiência de vinculação, através da qual o ser humano faz conexão e diferenciação com os outros e com o mundo. E, ainda, que essa experiência de vinculação é a grande reguladora das emoções. Esse chamado sistema de apego é um fator chave para a construção da identidade e se ativa sob condições estressantes, para reduzir o estado de alerta e reinstaurar o sentimento de segurança. Podemos dizer, então, que o trauma na vida infantil ou adulta é um conjunto de experiências que atentam diretamente contra a construção do si mesmo em relação. Pacientes traumatizados falam com freqüência de experiências como que isoladas e fragmentadas, como, por exemplo, diferentes percepções sensoriais que reaparecem com sensação de imediatez sem fluir no tempo, como os flashbacks e as revivências.
           E o que dizermos a respeito dos traumas de nossas crianças? Nos primeiros anos da infância, sabemos que o cérebro está em processo de crescimento e a negligência, o maltrato físico e emocional e o abuso sexual, entre outros, afeta o desenvolvimento normal cerebral.
           O estresse pós-traumático pode interferir no desenvolvimento da maturidade emocional dessas crianças, trazendo-lhes diversos problemas com relação à: aprendizagem, culpabilidade, vergonha, inibição e agressividade, entre outros. Se as crianças aprendem, a partir de suas experiências, como é o mundo, o que aprendem de suas experiências traumatizantes?
           Trabalhamos com crianças, adolescentes e adultos, com histórias de traumas, com terapia de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) ou Movimento Ocular, Dessensibilização e Reprocessamento. Esta abordagem terapêutica busca a integração emocional e cognitiva da experiência que resultou em trauma.
           Shapiro (2002), criadora do EMDR, diz que a busca do processo de informação adaptativa facilita ao terapeuta um procedimento para identificar os acontecimentos passados que contribuem ao problema, os acontecimentos atuais que o desencadeiam e as habilidades e recursos internos que necessitam ser incorporados para uma vida plena e saudável.
           Pesquisas em mais de 70 países mostram como o EMDR traz bons resultados com pessoas vítimas de um único acontecimento traumático (Rubin, 2003), com cerca de algumas sessões (3 a 8) de 90 minutos. Com situações de trauma repetidos, como abusos sexuais, físicos e psicológicos ao longo da infância, o tratamento exige um tempo bem mais longo, dependendo do caso.
           De forma simples, podemos dizer que o EMDR considera que o acontecimento etiológico é codificado de modo disfuncional no sistema de memória da pessoa e que através de um foco eleito como o representante do trauma, aliado a uma cognição negativa, junto às emoções que acompanham esse trauma; aliados a uma cognição positiva onde terapeuta e paciente possam trabalhar, com diferentes modalidades de estímulos bilaterais (oculares, auditivos ou táteis); enquanto o paciente se fixa no foco pré-determinado por ele, começam a emergir emoções, imagens, pensamentos e sensações que vão se associando livremente. Durante esse processo, o paciente, com a facilitação do terapeuta, realiza conexões e associações que têm como conseqüência a mudança das percepções disfuncionais para outras mais adaptativas e saudáveis (Van Der Kolk et al., 1996). As novas aprendizagens requerem que se façam conexões entre as experiências de memória associativa, entre as experiências do presente e do passado. O núcleo do trabalho de EMDR consiste em potencializar as conexões através desses canais associativos da memória. O EMDR, centraliza-se na experiência corporal do afeto, já que considera que a expressão verbal do mesmo está limitada pela própria linguagem. Isto, junto com a integração progressiva do emocional dentro da nova experiência, que vai surgindo durante a terapia e a construção das narrativas emergentes.
           Trabalhamos, em nossa prática clínica, com: medo de dormir e de ficar sozinho, nas crianças; pânico em elevadores e lugares fechados;  medo de viajar de avião; ansiedade ligada a situações de performance sexual; inibições profissionais; quadros de violência nas relações conjugais e familiares, entre outros. Como exemplo, podemos citar uma narrativa de Joaquim, nome fictício de um executivo de 43 anos:

“... como eu poderia imaginar que meu medo e desespero e “brancos” ao falar em público tinham relação com a humilhação que sofri aos 7 anos, na sala de aula de leitura ?”

Tantos outros traumas de nossos cotidianos podem existir ligados a: relações de violência banalizadas em nossa sociedade como: humilhações por educadores e chefes; filmes de terror assistidos por crianças; relações sexuais forçadas; notícias e manchetes sensacionalistas, entre outras. Há, ainda, traumas negados pelo preconceito social, como: o racial, os que podem ser oriundos de abortos provocados e de violência sexual de homens contra meninos. Uma sociedade culturalmente sexista, homofóbica e bifóbica, dificulta a revelação dessas experiências, mesmo na esperada segurança ética e sigilosa do setting do psiquiatra e do psicólogo.
           Como nenhum homem é uma ilha e vive isolado, é importante focalizar a dimensão psicossocial do trauma na saúde mental das pessoas. Este deve estar situado em coordenadas sócio-históricas bem como seus diversos entornos. Historizar a dor de onde vem, que razões ela possui e quais personagens e protagonistas estão presentes, é fundamental.
           Pensemos nos aspectos da criação, manejo e transmissão de símbolos, sua sociabilidade e sua atividade nos sujeitos enclausurados pelo Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), por exemplo. Estes são sujeitos sócio-históricos, não nos esqueçamos. Pensemos em crianças traumatizadas por uma cultura que confunde diferenças com desigualdades; com violências terroristas e de guerras; as humilhações por diferenças de raça e religiões; as violências de gênero e as domésticas; só para citar algumas. Martin-Baró (2009) disse que o trauma, além de causar danos ao sujeito, afeta e é produzido pela sociedade.
           Precisamos refletir como pais, educadores, profissionais da saúde, políticos, governantes e gestores, em geral, sobre nossas atitudes que alimentam, dão cobertura, negam ou institucionalizam as dores de pessoas traumatizadas, ou seja, cada um de nós, em maiores ou menores graus.
           Se perdermos as nossas sensibilidades aos sofrimentos dos quais somos autores, co-autores e vítimas, estaremos contribuindo para uma cristalização concreta nos indivíduos que estão em relações sociais desumanizadoras. Olhemos a nosso redor! Quantos grandes e pequenos traumas, mas todos potencializadores de sofrimentos, podem trazer as autoridades de empresas com os assédios morais; os educadores, com a humilhação e a massificação na aprendizagem; os abusadores do poder, que manipulam sistemas de crenças e valores que dificultam nos relacionarmos como nossos entornos, com confiança e reconhecimento do próprio valor?
           Como não nos traumatizaremos numa sociedade em que o medo está se convertendo em padrão fundamental da vida social? O medo é gerado na subjetividade de pessoas concretas e, como tal, é uma experiência privada e socialmente invisível. Todavia, quando milhões de pessoas, como nós desta São Paulo, por exemplo, estamos ameaçadas por seqüestros, roubos, balas perdidas, que matam indiscriminadamente; crianças que atiram em crianças dentro de salas de aulas; aviões que caem em tetos de lares; enchentes que misturam, na lama, fotografias de histórias de vidas com animais; crianças e idosos; além dos suicídios de jovens desesperançados; como não observar esses entornos que provocam e nos retraumatizam?
           A vida cotidiana, nos traumas nossos de cada dia! Como falar de saúde mental de um povo com dificuldades de defender sua família do cotidiano social? Como co-construir liberdade para o bem estar? Como impedir que traumas destruam a crença solidamente compartilhada de que podemos ser, como humanos, bons, honestos, confiáveis, amáveis e sensíveis? Se ficarmos radicalmente desconfiados das relações interpessoais, como produtos dos traumas nossos de cada dia, como convivermos com a dramática consciência da vulnerabilidade; da perda da sensação de nossa importância na nossa sociedade e nosso bem estar comum?
           Para a construção de uma cultura da paz, a idéia de resiliência significa que, de alguma forma, os indivíduos podem escapar de um destino inevitável, se aumentarem sua capacidade de suportar o impacto psicológico de um evento potencialmente disruptivo, como os citados aqui.
           Esperemos que estas reflexões nos impeçam de não nos desanimarmos frente ao espanto, ao sadismo, à impunidade e à silenciosa banalidade do que pode nos tornar traumatizados a cada dia, na consciência do nosso viver, a cada momento, como protagonistas, autores e diretores de nossas vidas em comum.
           Que a saúde mental, em seus vários segmentos possa ser cada vez mais preventiva para evitar que pessoas moral e eticamente justas, participem de ações destruidoras de nosso bem estar comum! Uma educação para a consciência e a resiliência é um dos maiores desafios de nossa saúde mental!
           Os traumas nossos de cada dia: nossos desafios e responsabilidades!


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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BREUER, J.; FREUD, S. (1895). Estudos sobre a histeria. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 2. Rio de Janeiro: Imago, 1990, p. 15-297.

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MARTIN-BARÓ, I. Accion e Ideologia. Psicologia Social desde Centroamérica. San Salvador: UCA, 2005.

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